segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sonhos que (não) se erguem

Melancolia, Munch


A última crónica de Valter Hugo Mãe no JL deu-me voltas ao estômago; ele, que já não anda muito bem desde que recebe, de oito em oito horas, a visita de um anti-inflamatório, ficou agora ainda pior. O texto fala de José Alberto, um homem que durante não sei quantos anos lutou por erguer o sonho do seu pai: construir uma casa museu. A luta, que tem sempre dois lados, ou mais, foi com a Câmara Municipal de Vila do Conde, sim, essa, que recebe o festival de curtas-metragens. Parece que as conversas entre a instituição e o detentor do sonho eram sempre baseadas em promessas, falsas, e criação de expectativas que nunca chegavam a passar do secretário para o gabinete das obras, ou outro nome qualquer designado para, numa câmara, pôr as coisas de facto a andar. Nada disto importava muito se houvesse mais anos para correr e mais vida onde a esperança se pudesse alimentar. Mas essa espera finalmente terminou, com a morte do próprio José Alberto, filho de Julio/Saúl Dias e amigo de Valter. Esta ideia de morrer sem cumprir aquilo que estávamos destinados é o que realmente torce o meu estômago já doente. Talvez por não acreditar que um dia a sua alma voltará ao nosso mundo (e, acaso tal for possível, para quê?), talvez por cada vez ser mais descrente na boa vontade alheia. Talvez por não crer que os outros liguem, passo a expressão, a peva para os nossos sonhos. Mas o texto, esse, deu-me vontade de arregaçar as mangas e partir para Vila do Conde, gritar aos ouvidos de quem não me quisesse ouvir e esganar e bradar e sacudir e amassar e e e e. 

Resta-me a esperança que se faça jus à vontade de José Alberto e que, de alguma forma, eu e tu e todos nós possamos contribuir para tal. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

(nome)

desconhece-se a autoria da fotografia. estava perdida na gaveta fechada há anos naquele cubículo de formas arrendondadas sem vida. era a preto e branco, ainda se lembra, e tinha o mar por trás, ou era jardim?, qualquer coisa com vida. há tanto tempo não abria a gaveta que a julgava perra, sem movimento nem força para deslizar os pequenos cinco centímetros que fossem, onde coubesse uma mão pequena - a sua - que, entrando naquele baú escuro de recordações, desenrolaria círculos infindáveis na busca daquele papel. 

o ano é de 19... e mais não se percebe. podia-se tentar adivinhar mas imaginemos que ficava-se muito longe da realidade. isso não podia ser. não podemos dar datas às coisas que não conhecemos. ou melhor, datas falsas. ou, por outro lado, não devemos dar datas a coisa nenhuma.

a autoria, essa, faz subir o cordão da humildade. essa tem que aparecer, nem que seja num cantinho, à margem, quase envergonhada. mas, lá está, desta fotografia ninguém sabe.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Não sabe se é do vento que teima em inspirar, se é das partículas de pó que se amontam no lado esquerdo da cabeceira do quarto onde já não dorme. Os móveis permanecem no mesmo sítio, a escada em caracol perpetua-se numa tentativa de chegada ao céu, a cama velha e com mantas gastas, as molduras com retratos cheios de cor esbatida. Os livros, sempre os mesmo livros. Já não compra livros, habituou-se a frequentar a biblioteca da cidade, a única, e pede os mesmos livros que tem em casa. Patético. Mas ele não sabe ler. Isso não importa. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

rede

Senta-te perto e tece uma rede para mim. Para que a queda não doa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

a música saía por uns aparelhos estranhos montados num palco à pressa. as velas acendiam a luz naquela sala escura, embora fosse meio da tarde. às vezes é assim. quer-se à força escurecer o dia ou, outras, incendiar a noite rendida. as mesas estão alinhadas e pouca coisa há a fazer senão ouvir e sonhar e, aí, o lugar vai longe e distante. limita-se a cantarolar, a bater o pé, enquanto fixa a cara daqueles rodeantes e pensa 'quem me dera que estivesses aqui'.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Houve um tempo em que ele olhou para ela e sorriu. Ou melhor, em que ele sorria para ela, quando tinha coragem de a olhar, quando não escondia a cara ao vê-la descer a rua em direcção a casa. Aconteceu-lhe muitas vezes imaginar-se a falar com ela, a perguntar pela vida, a levar-lhe os livros e a mochila na sua bicicleta, mas a coragem nunca lhe deixou abrir a boca para dizer uma sequer palavra. Diziam-lhe que não servia para ela, ela era diferente, não era dali, não ia ficar ali. A terra era demasiado pequena para os pés que carregavam o seu corpo que, noite a fio, ele imaginava junto do seu. Mas as noites eram sempre pequenas para tudo aquilo que ele lhe queria contar, dizer, mostrar. Havia um país que ela não conhecia e era o dele, um país bem longe dali, pobre, com pronúncia estranha. Mas ela não conhecia, ela não o conhecia, e ele acabou enganado por todas aquelas pessoas que o avisaram para se afastar, que não havia tempo para beber um café ou passear pelo verde que rodeava terra. Ao menos soubesse ele que, bem perto dali, essa menina sonhava com o dia em que ele apareceria na sua bicicleta e lhe levaria os livros e lhe daria uma flor. Ela foi-se embora daquela terra, anos depois, com a memória de ter havido um rapaz que lhe sorriu. E ele, ele continuou lá, com a certeza que um dia amou, mas foi a menina errada.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

exercício de estilo (1)

se algum dia quiseres voltar a esta casa e eu já não estiver à tua espera, não queiras saber de mim nem perguntes onde estou. há quem consiga voar e desaparecer para sempre. eu não sou assim, nem, convenhamos, nunca virei a ser. por isso, não me tentes sequer. deixa-me esconder, dá-me esse avanço, para que nunca mais tenha que voltar a ver-te.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ir a Roma


A face baloiça ao ritmo do bater nervoso da sua perna esquerda. Enrola as pontas do cabelo apanhado como se rodasse moedas de um cêntimo. Os seus olhos assistem a um filme que fala de homens comandados por homens, quase marionetas. Mas a sua cabeça já está longe. Está num lugar onde não existe muito mais do que um chão de madeira e pequenas estrelas de felicidade. E por mais que procure, ela não encontra espaço onde possa colocar o seu amor. Talvez porque não o seja e esteja apenas a confundir o significado de uma palavra que, recentemente, se tornara tão banal. É, o amor já lhe parecia uma junção de letras ao acaso e, convenhamos, ridícula. Preferia, dizia muitas vezes, o seu inverso. E ir a Roma. 

domingo, 30 de setembro de 2012

ontem e mais um dia

Não é preciso muita coisa para percebermos que podemos perder tudo de um dia para o outro. De um minuto para o seguinte. E passa tudo tão rápido, tão fugaz. Ontem lembrei-me do dia em que te perdi para sempre e dentro, algures entre o coração e a cabeça, pensei o quanto, aos poucos, perco aqueles que eu amo. A ti, perdi para sempre. Os outros estão cá mas cada dia que passa, alguns, vejo-os mais longe e sem espaço no meu mundo. Ao menos pudesses descer e trocar lugares.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

prazo de validade

Já não o sinto por aqui. As palavras já não trazem o seu nome, a roupa já não me traz fantasmas longínquos.  Foste para um lugar bem longe daqui, não te consigo ver nem cheirar. Apenas esta voz, nestas canções gastas de lágrimas, me recordam tempos passados. Mas descansa, até essas vou apagar.  

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Os dias não dão corda aos sonhos. Ao menos houvesse uma caixa de música sem bailarina onde pudesse encaixar.
inscrições para o Indie Lisboa estão aí. que me venha a inspiração.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Dear Clementine,

I'm really sorry you're sick, but I'm not sorry you're my girlfriend. It's the worst being alone on Valentine's Day. But, I'm thinking about you right now, I'm thinking about holding hands with you and jumping on a trampoline together. :) I love you. 

And P.S. I don't care who gave who lice. I'm just glad we both had it together. :)

Love,
Nico

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

no tempo em que as pernas corriam mais que os sonhos

Houve um tempo em que as pernas corriam mais que os sonhos. Éramos crianças, quase jovens, e o tempo passava devagar dentro das quatro paredes de uma sala de aula riscada de grafitis, de promessas de amor eterno, de desenhos de corações em volta de dois nomes que toda a escola conhecia. O corpo não pesava, a cara não carregava rugas e era tudo tão cedo, tão no início. Havia sonhos, sim. Mas não como agora. Talvez porque o que tínhamos bastava e era tão bom assim. As promessas de adultos ficavam para um dia mais tarde, muito mais tarde, quando já não fossemos daquela escola, quando os horários fossem outros, quando os amigos daquela sala, no momento tão próximos, aos poucos se afastassem e se tornassem em meras recordações de um passado feliz que agora me custa a acreditar que existiu. Talvez todos nós sintamos inveja de nós próprios, das pessoas que éramos naquele tempo. Ou eu, pelo menos. 


15-08-2012

sábado, 11 de agosto de 2012

A primeira vez que fomos ao cinema juntos. À hora marcada lá estavas, já tinhas os bilhetes e foi estranho ver-te fora do contexto a que estávamos habituados. Já tinhas visto o filme, era o teu filme preferido dos últimos tempos. Já o tinhas visto e querias revê-lo comigo porque, para ti, fazia todo o sentido. Era a história de um rapaz obcecado por funerais e uma jovem no fim da vida. Era uma história de amizade que se transformava em amor. Ou um amor que se transformava também em amizade. Como o nosso. O filme assistiu ao nosso início e foi muito bonito termos o nosso amor numa tela de cinema. Talvez não viveremos felizes para sempre, se calhar já não veremos mais filmes juntos nem trocaremos bilhetes à entrada da Faculdade, nem elaboremos um esquema para viver na floresta. Mas os filmes duram para sempre, isso eu sei. E essa é a única certeza que te posso dar.

qualquer coisa assim

Parece que se passaram mais de vinte anos desde aquela tarde. Os nossos corpos envelheceram e já não são os mesmos. Ganharam buracos e não têm força para metade das coisas que fazíamos. Fossemos ao menos crianças outra vez a brincar no parque.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

- Há muito tempo que não vens aqui.
- É, tenho andado meia perdida.
- Então?
- Diz-me tu.

amor em vasos

O dia tinha-se passado bem, sem grandes sobressaltos. Era já fim de tarde quando ela decidiu falar-lhe naquilo. Sabia que ia despontar uma tempestade depois disso mas também sabia que aquele silêncio de paz queria dizer muita coisa, e nenhuma coisa era parecida com felicidade. Às tantas, ele pede-lhe distância, pede-lhe que o deixe habituar-se a não tê-la, a ter a vida de antes. Ela não responde ao que ele quer e já nem se lembra do porquê de ter começado a falar daquilo. Afinal, pode-se viver sem falar das coisas. À porta de casa ela tem um vaso. Ontem colocou lá hortelã, juntamente com as memórias do seu último amor.

terça-feira, 3 de julho de 2012

aiwnsg

sonhos que se vão construindo


"Im coming out of make-up, the lights already burning, not long until the cameras will start turning and the early morning madness and the magic in the making... Yes, everything is as if we never said goodbye. I don't want to be alone that's all in the past, this world waited long enough. I've come home at last! And this time will be bigger and brighter than we knew it. So watch me fly, we all know I can do it... Could I stop my hand from shaking? Has there ever been a moment with so much to live for?" 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Estou sentada em frente à sua árvore. Que bonita oliveira! Vem-me à memória as suas palavras, o seu rosto carregado de anos, a sua voz grave e cansada. Hoje, vim ver a tua exposição e esquecer que já passaram dois anos da tua morte.

Não subiste às estrelas, pois não, estás bem aqui, no Campo das Cebolas e em Lanzarote.
Obrigada, J.S.


25 de Junho 2012

quarta-feira, 13 de junho de 2012

bh

"I just can't take the pressure, please just let me be

see I've been breaking hearts for far too long
been loving you for far too long,
making plans now for far too long.
It's time I left, it's time
I'm moving on.

I'm gonna find a city, call the streets my own."

domingo, 10 de junho de 2012

Rulfo

"Era la hora en que los niños juegan en las calles de todos los pueblos, llenando con sus gritos la tarde. Cuando aún las paredes negras reflejan la luz amarilla del sol. Al menos eso había visto en Sayula, todavía ayer, a esta misma hora. Y había visto también el vuelo de las palomas rompiendo el aire quieto, sacudiendo sus alas como si se desprendieran del día. (...) Fui andando por la calle real en esa hora. Miré las casas vacías; las puertas desportilladas, invadidas de yerba. ¿Cómo me dijo aquel fulano que se llamaba esta yerba? (...) Al cruzar una bocalle vi una señora envuelta en su rebozo que desapareció como si no existiera. Después volvieron a mover-se mis pasos y mis ojos siguieron asomándose al agujero de las puertas. Hasta que nuevamente la mujer del rebozo se cruzó frente a mí. (...) Volvió a darme las buenas noches. Y aunque no habia niños jugando, ni palomas, ni tejados azules, sentí que el pueblo vivía. Y que si yo escuchaba solamente el silencio, era porque aún no estaba acostumbrado al silencio; tal vez porque mi cabeza venía llena de ruidos y de voces. De voces, sí. Y aquí, donde el aire era tan escaso, se oían mejor. Se quedaban dentro de uno, pesadas. Me acordé de lo que me había dicho mi madre: Allá me oriás mejor. Estaré más cerca de ti. Encontrarás más cercana la voz de mis recuerdos que la de mi muerte, si es que alguna vez la muerte ha tenido alguna voz. "



em Pedro Páramo, Ruan Rulfo

quinta-feira, 7 de junho de 2012

domingo, 27 de maio de 2012

SF

- Houve motins, Simão. Houve motins. Não viste na televisão quando não foste trabalhar? Não saíste à rua?
- Talvez sim, não me lembro.
- Não te lembras?

(...)

- Mas isso não te assusta?
- A minha vida toda foi um motim.

em Overdrama

sexta-feira, 18 de maio de 2012

alkantara festival



Encomenda e produção Ciudades Paralelas (coprodução HAU e Schauspielhaus Zürich em colaboração com Goethe-Institut Warschau, Teatr Nowy e fundação Teatr Nowy; financiamento de Kulturstiftung des Bundes, Pro Helvetia e Goethe Institut de Buenos Aires)
Coprodução Kunstencentrum Vooruit
Produção artística Katja Timmerberg
Coprodução da versão portuguesa Culturgest
Estreia Ciudades Paralelas, outubro de 2010, Berlim

           
The Quiet Volume é um espetáculo sussurrado, autogerado e “automático” (Autoteatro) para duas pessoas de cada vez, explorando a tensão particular que se encontra em qualquer biblioteca; uma combinação de silêncio e concentração dentro da qual se desenrolam experiências de leitura diferentes para cada um.

Dois espectadores / participantes sentam-se lado a lado. Recebendo deixas de palavras escritas ou sussurradas, dão por si a abrir um caminho improvável por entre uma pilha de livros. A peça expõe a magia estranha que está no centro da experiência de leitura, deixando que os mecanismos que julgamos internos se debrucem sobre o espaço envolvente, abrindo porosidades entre a esfera de um e outro leitor.

Local: Biblioteca Nacional (Lisboa)
Duração: 50 min

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Hoje saiu de casa com as sandálias e o roupão
Como é costume com dinheiro, com cigarros
Lá foi passear o cão, são como irmãos
Oiça é bem capaz de ser engano, veja bem!

Éramos dois e só os dois
Sem mais ninguém no mundo
Deus sabe quantas aflições
Mas quem me vem dizer agora
Que ele sofre que ele chora
Sem motivos, sem razões?

em Ele é que não, JP Simões

domingo, 13 de maio de 2012

Zeca Afonso

(...)

Foi sempre tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar para trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Que diz o contrário é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada.


em Os Índios da Meia Praia

quarta-feira, 9 de maio de 2012

a recordar os quinze anos

O IPO (Instituto Português de Oncologia) está a angariar filmes VHS ou DVD's para os doentes da unidade de transplantes que estão em isolamento.

São crianças e adultos que precisam de um transplante de medula e de estar ocupados durante o tempo de internamento, explicou ao Portugal Diário a Enfermeira responsável pela unidade, Elsa Oliveira. A falta de "stocks" torna necessária a ajuda da população. "Precisamos de filmes para as pessoas mais desfavorecidas que não têm possibilidade de os trazer. Algumas crianças trazem os seus próprios filmes e brinquedos mas depois quando têm alta levam-nos", acrescenta.
 
O IPO aceita todos os géneros de filmes, mas a preferência vai para a comédia.
 

As cassetes de vídeo ou DVD's podem ser enviadas para:

Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil
Unidade de Transplante de Medula
A/C Sr.ª Enf. Elsa Oliveira
Rua Professor Lima Basto 1070 Lisboa
Ou então, informe-se pelo telefone:
217 229 800
217 229 800
217 229 800
217 229 800
 
 
 

terça-feira, 8 de maio de 2012

"now and then I think of when we were together; like when you said you felt so happy you could die; told myself that you were right for me but felt so lonely in your company but that was love and it's an ache I still remember.

you didn't have to cut me off, make out like it never happened and that we were nothing and I don't even need your love but you treat me like a stranger and I feel so rough."

domingo, 6 de maio de 2012

a Queima das Fitas e a "tradição académica" -
entrevista da Mais Superior a João Curvêlo


Por que é que não vais à Queima das Fitas? Que valores vês associados a ela com os quais não te identificas?
A Queima das Fitas é um dos vários momentos de um processo mais alargado. Este processo começa logo quando os estudantes chegam à universidade, com o ritual da praxe. Ou seja, começa mal logo desde o início. Há muita gente que diz que a praxe é uma forma de integração e, no caso da minha faculdade, até temos um reitor que acha que a praxe é um mal necessário. Na verdade, a praxe não integra coisa nenhuma e muito menos é necessária. É simplesmente uma forma de anular o pensamento crítico e de reproduzir uma série de valores que deviam ter ficado no passado: o machismo, a homofobia, o conservadorismo das mais variadas formas, a hierarquização das pessoas sem razão nenhuma. O preconceito em relação a tudo o que é diferente, portanto.

Sentes alguma espécie de pressão de outros estudantes para ir e para viver a “tradição académica”? Achas que existe essa pressão?
A pressão acontece todos os dias e de várias formas. Desde logo, há pressões evidentes e vários casos de violência têm chegado aos tribunais. Em alguns casos, tem mesmo havido condenações e atuação judicial sobre o agressores. Para além desses casos mais mediáticos, acredito que haja muitas pessoas que não denunciam por medo ou receio de represálias. E há a ideia de que, se não fores à praxe e não seguires os rituais da “tradição académica”, nunca terás amigos na faculdade. Isto é absurdo: as pessoas também tinham amigos antes de haver esta coisa da “tradição académica”. E vão continuar a ter quando finalmente isto passar. Mas há um outro tipo de pressões, mais perigosas porque mais silenciosas, que estão relacionadas com a própria imagem da universidade que foi sendo construída. É sempre reproduzida uma imagem única da universidade, como se não houvesse espaço para a diversidade e para as pessoas poderem ser quem são. Se pensares bem na própria iconografia associada à universidade, vês que a imagem de um estudante que nos vem à cabeça é um tipo vestido de preto e com um canudo na mão… Isto também tem um peso enorme e cria referências. E estas referências são-nos impostas todos os dias, não resultam da vivência dos estudantes.

Se o cartaz te agradar e os teus amigos quiserem ir, reconsideras ou não vais mesmo? É que, convenhamos que há Semanas Académicas que podiam ser um festival normal…
Tens razão. Há Semanas Académicas que quase parecem ser festivais normais, e isso também devia merecer alguma reflexão. A universidade não devia ser antes um espaço alternativo à lógica do mercado que domina os festivais? Não tenho nada contra o facto de as pessoas se divertirem, bem pelo contrário. Acho é que as universidades devem ser espaços onde as pessoas experimentam coisas diferentes – para a lógica mercantilista, já nos chega o resto da sociedade.

Como é que explicas que haja faculdades, provavelmente não a tua, que dão tolerância ou mesmo pausas letivas para o período da Semana Académica? Até que ponto é que isso não marca a vida de um estudante?
Acho que há faculdades se preocupam mais com as Semanas Académicas do que com os estudantes. Aliás, para ser estudante é preciso pagar e, muitas vezes, hipotecar o futuro: se houvesse mais preocupação em garantir que os estudantes continuam a sê-lo, se houvesse ação social para os que precisam, não haveria certamente tanta gente a desistir do ensino superior.

Achas que este tipo de iniciativas baixa, ou prejudica, a produtividade dos alunos do ensino superior?
Acho que é indiferente. Não tenho um discurso conservador, não sou daquelas pessoas que dizem que a universidade é um espaço só para estudar. Um bom aluno aprende tanto nas aulas como fora delas. E ainda bem que é assim. Acho que é preciso reinventar o sentido da universidade, e acrescentar-lhe pensamento crítico. Agora, tudo isto só faz sentido se for feito em liberdade e com liberdade. Ou seja, é exatamente o contrário das “tradições” que nos condicionam.





2 de maio de 2012

há quem não atravesse sequer a estrada.

sábado, 5 de maio de 2012

um poema de Clara Fontanet

Avui tenc el cor
com un pou de fa anys.
Ja no creixen verdors en ell
i crec que, lentament, he anat ofegant
ocells ferits,
fins a deixar l'aigua més vermella.



(Hoje tenho o coração
como um poço de há anos.
Já não crescem verdores nele
e acho que, lentamente, fui afogando
pássaros feridos,
até deixar a água mais vermelha.)
enquanto este amor for incompleto, será sempre romântico.

stay out of trouble



Passar pela Feira, rodeada de livros, e ficar com os kings no ouvido o resto do dia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"O meu único objetivo de vida é modestíssimo: não faço a menor ideia se aquilo que eu defendo vai fazer caminho, ou não. O socialismo ou o comunismo não são nenhum destino. Pelo que a gente vê, até é pouco provável que aconteça... Acho que a Humanidade está mais próxima de se destruir do que de construir um amanhã que canta. Não está nada escrito. Mas há uma coisa que sei: ao chegar ao fim da vida, quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade. "
 

Miguel Portas

sábado, 21 de abril de 2012

Primavera

"Algo me diz que há mais amor aqui. Lá fora só menti, eu já fui de cool por aí, somente só, só minto só. Hei-de te amar, ou então hei-de chorar por ti. Mesmo assim, quero ver te sorrir e se perder, vou tentar esquecer-me de vez, conto até três, se quiser ser feliz."


terça-feira, 10 de abril de 2012

Manuel Amado
"Encenações"

a linha acaba quando

A linha acaba quando passa por dentro. E a vida (ou o amor?) é mesmo assim: por muito que se ceda, por muito que a ganga se dobre, por mais que afirme o vinco com o ferro, a linha sai torta e tenho que começar de novo. As costuras de lado estão novas mas imagino-as já daqui a uns meses, gastas, descosidas, sem amor. Às tantas, o tamanho já não vai servir, por uma ou outra razão, e aí será preciso arrumá-las a um canto. Afinal, o amor (ou a vida?) é mesmo assim.

Mas isto fui eu a fazer uma bainha. Pouco mais.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Improvisação (9-4-2012)

Podemos começar. Duas raparigas estão sentadas, dois rapazes dividem-se pela sala: um caminha ansiosamente à volta das sentadas, o outro procura a gravata ideal no meio de um monte delas, desarrumadas, no chão. Parece alongar-se no tempo então alguém pergunta se demora. Calma, é o nosso funeral, não podemos ir de qualquer maneira. Levo vestido ou saia? Ele lembra-me que a minha mãe não iria gostar que eu fosse de vestido. Recordo-me porquê? Afinal porque estamos ali? Ah, já sei, uma de nós não consegue sair da cadeira, está presa, talvez tenha morrido atada. Terá? Certo é que, aquela que não sabe se leva vestido ou saia, não consegue ler e agora está revoltada porque os olhos já não lêem, o outro continua a escolher a roupa para o seu funeral, a outra continua sentada e o outro lamenta-se por nunca ter usado gravata: como teria sido possível em 20 nunca ter usado gravata?


domingo, 8 de abril de 2012

gaveta

Estive a vasculhar coisas antigas. Encontrei perdidas na gaveta uma série de recordações que são para estar onde estão: lá, bem no fundo. Lembraram-me os tempos em que a minha altura era mínima, em que os sonhos começavam a ser grandes, em que andava na escola a aprender matemática e estudo do meio, em que usava uma mochila às costas pesada cheia de livros e cadernos. A mochila era azul e tinha letrinhas espalhadas e era tão, tão grande! Às vezes imagino esta fotografia: eu, pequena, de vestido e collants brancos, a ir para a escola de mão dada com a minha mãe, a mala às costas, maior que eu, e só se veria os pés e o cabelo curtinho com gancho de lado. Mas todas estas recordações vieram-me da tristeza (ou revolta?) de teres feito parte da minha vida. Não suporto o facto de teres estado aqui e agora teres desaparecido. Teres-me feito pensar que ficarias aqui para sempre e afinal, afinal... És o que eu sei. Uma desilusão. Não quero saber das prendas que todos os anos tentas oferecer pelo Natal, nem dos falsos arrependimentos, nem das tuas palavras mansas cheias de falsidade. Graças a ti, ao que fizeste, é-me quase impossível acreditar que as pessoas ficarão aqui para sempre. Graças a ti, andei perdida no meio de confusões que tiraram um pedaço grande da minha vida, dos meus sonhos. Graças a ti, não consigo acreditar que as pessoas mudam. E é somente graças a ti que não te perdoo.

Quase nevava lá fora, o vento abanava as casas e o frio fazia os joelhos tremerem.
Mas não fazia mal: a porta da livraria estava aberta, como sempre estava,
e lá dentro esperavam-me outros mundos.

sábado, 7 de abril de 2012

AS JUNÇÕES, por Hugo Milhanas Machado

Deixo-vos um pedaço da crítica de Henrique Manuel Bento Fialho ao poemário AS JUNÇÕES (Artefacto, 2010):

"(...) Resulta impressionante a forma como a anomalia é integrada sem esforço, deixando, assim, de ser anómala, passando a ser um terreno fértil onde a linguagem rebenta e dá os seus frutos. É um poema sobre o que ficou para trás (sol, praia, mar, alegria, marinheiros, cor, cervejas, beijos, etc.), reflectindo uma alegria encalhada na tristeza da perda (...)."

ver artigo completo aqui

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Atlas

Foi precisamente há cerca de cinco meses que me meti naquela aventura. No cartaz pediam pessoas de todas as profissões, com ou sem experiência em palco. Enviava-se um e-mail com uma espécie de carta de motivação e currículo e aguardava-se resposta. Passadas umas semanas, recebi a feliz notícia que tinha sido aceite. Começaram então os ensaios no espaço Alkantara, o calor abrasador do fim de Verão a bater nas ruas barulhentas de Santos. Os ensaios eram duas vezes por semana e, a cada dia, conhecia-se pessoas novas. O velho pastor, que me deu uma fotografia sua no seu atelier de trabalho, o enfermeiro, que mais tarde reencontrei no S. Luiz e várias outras vezes pela rua, o jornalista que havia sido da minha Faculdade, o actor que agora vendia gelados, e por aí fora. O espectáculo começava a montar-se e os nervos cresciam com o aproximar da estreia no Teatro Maria Matos. Veio o ensaio geral, a televisão, as entrevistas, a descoberta dos camarins, a primeira entrada pela Porta dos Artistas, o passe de livre circulação no Teatro. Veio a estreia, as palmas, as flores. O jantar de despedida, o brinde e a lágrima fugitiva no canto do olho. E agora, veio-me tudo isto, em forma de lembrança bonita.

Afinal, se um incomoda muita gente, 100 incomodam muito mais.


O pão

Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.


Rui Costa (1972-2012)
em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves