quarta-feira, 26 de março de 2014

perder silêncios


Vou perdendo os silêncios a que durante anos me acostumei. Encontro as diretrizes que acreditava desfeitas em nós complexos e tanta, tanta incerteza do fim. Vejo-te na minha cama, respiras devagar, incomoda-te o meu braço sobre a tua barriga, ajeitas, pensas que não vejo, pensas que não assisto à tua manobra de perfeitarmos os nossos corpos em sintonia. Encosto o olho ao canto e vejo que a manhã chegou: o quarto deixa de estar escuro, adivinho o tom do despertador, aguardo a sua chegada dentro de alguns segundos, oiço vozes na cozinha. O dia começou sem nós, vês como não fazemos falta? Deixa-nos ficar aqui, estaremos prontos, assim, amanhã? Repete esse gesto que é apanhares o meu despertador quando ele dispara e abraçares-me de seguida, beijas-me. Choramos os dois, não choramos? Choramos por ter tido que dividir a noite e o amor pelas horas de sono, que amanhã trabalhamos, há ensaios, há e-mails, há propostas. Agarra-me um pouco mais. Não vou deixar-te ir.

domingo, 2 de março de 2014

descer ao Martim Moniz

É domingo. Vamos passear ao Martim Moniz? Vamos, vá, que o tempo acaba e o dia adormece. Vamos tomar conta dos sonhos e dar a volta ao matrimónio. Agarra a minha mão, vê como ela cabe na tua. Levo os collants azuis? Sei que gostas de me ver com eles. Vamos passear, estou quase a sair de casa. Passas aqui? Ou encontramo-nos na Praça? Tens razão, eu desco a Avenida. Apanho-te na estação, cá fora, digo. Não, não me atraso. Quero apanhar os noodles quentinhos. Ah, pois é. Ok, levo-te. Passamos texto na esplanada, queres? Parece-me bem. Aproveita que hoje apetece-me dar-te as deixas. Sim, sou a Ania. Ou preferes Anja? Nunca sei como me chamar. Não te rias. Vá, até já. Meu amor.