segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
ombreira pintada de fresco
O copo pousa na ombreira pintada de fresco, enquanto o ruído dos carros vibram a janela precocemente virada para o oeste do que há-de vir.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
fervedor
Levanta-se a custo do sono pesado; a água aquece no fervedor e cheira a infâncias perdidas em anos temporários. A mão lembra aquela vez em que o aconchego dos temporais servia para alinhar os corpos em conjunto, para saudar a família dispersa e acumular os sonhos, porque a vida ainda era os anos todos que faltavam vir. Na minha alcofa já só há ar, o corpo sumiu-se na oxigenação dos dias; as pernas doem-me em dias de baluta e esfrego os olhos, sempre à mesma hora, para lembrar aquele sono. Aconchega-me e vejo o fervedor, caminha para ele. Não o alcança, já não existe.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
movediço nas águas
Com menos gostos invadi o futuro. Já não creio nos habitantes de curta
altura nem nas barbas movediças encostadas ao punhal canhoto. Espero eternamente
na sensação frágil de cair em desespero em cada passo jogado em tabuleiros
cinzentos. A corda treme a cada empurrão, o coração acorda a cada radiografia
mal noticiosa, a caneta esfrega a assinatura da morte e espero. Conto os dias
em simultâneo de um relutar hesitante e movediço nas águas que lembram a
infância. Águas tão belas como as que vimos juntos um dia, no caminho para
casa. Ou talvez as férias à beira da saudade dos tempos vindouros. Tenho a
sensação de que me alongo na expectativa vã de me enfiar no casaco de peles que
a minha Avó me prometeu. A velha, a gasta. Acordo e espero. É dia de ir, de não
ficar. O ombro engordurado diz-me que são horas de alterar o movimento
circunscrito à calçada portuguesa. Compro os bilhetes e não espero.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Quando
Quando o meu corpo encalhar e a pele seca cair
sobre o chão, eu sei que nunca mais te irei ver. Quando o sexo deixar de ser do
teu proveito ou as minhas mãos não mais surtirem efeito, eu sei que terás
abandonado as horas entregues à imaginação de um amor mútuo construído por mim.
Quando os meus olhos ganharem cor baça em vez do verde pelo qual te apaixonaste
um dia, estarás tão ausente como eu hoje me sinto de ti.
Este texto está publicado na edição #77 d'Os Fazedores de Letras
sábado, 30 de agosto de 2014
à mesa
Se eu não souber como morrem as gentes ancoradas ao azul marinho da terra; ver pairar sobre a mesa o silêncio abafador da incerteza do querer estar vivo. Aguarda-se em silêncio o correr dos dias e alegra-se no momento do encontro. Disfarça-se o encanto à medida térrea das gentes saloias. Gente tão bonita. Que transpira o suor recolhido em memória de tempos passados. A aguardente ainda a encolher o passo, ri-se muito à volta da paródia em tardes e noites de café. Pertenço-lhes. Mais do que supus.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
vozes na rádio
Já viste onde estamos? Oiço a tua voz apenas pelo rádio,
vasculho os teus novos interesses e amigos, pego em recordações antigas e
parecem fugir-me da mão. Que lhes fizeste? Amarraste-as em algum sítio? Diz-me
onde estão. A tua voz na rádio é bonita. Lembro-me dela às vezes. E a tua mão
direita, ainda escreve? Espero que sim, tinhas jeito para escrever. Por vezes
releio aquela dedicatória no livro que me deste, aquele que eu reli tantas
vezes nas aulas da Faculdade. E tem tudo a ver com o programa, já viste?
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Caderno 2
Lançado amanhã, dia 5, às 18h na Fyodor.
Fyodor Books
Avenida Óscar Monteiro Torres, n° 13, B, Campo Pequeno
domingo, 1 de junho de 2014
equívoco linguístico
Espreme-se as últimas imagens da noite anterior. Vemos ao longe caídas, caminham em passo apressado na esperança de se varrerem pela tarde de verão em que o meu corpo penumbra. Gratos pelos minutos concedidos em contramão, a mentira a ganhar lugar, a passar à frente de palavras ditas em contextos nunca mais repetíveis. Aqueço o frio dos corpos, as roupas dobradas ainda cheiram a tarde de sol. Último dia do mês. Último dia do amor, do que ficou... Não, não, risco a palavra, não se enquadra, equívoco linguístico: termina em "mês". Ponto.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
Dixit # 1
Dispo-me
Estás sentado junto à janela. Gostas desse lugar? Sentas-te sempre aí quando aqui chegas. Respiras o fumo do cigarro, sabe-te bem. Queixas-te da vida que deixas lá fora e sorrio para ti: convido-te a ficar. É só um quarto, o meu quarto, lugar onde podemos repousar. Estás sentado junto à janela e olho-te com admiração. Nunca saberás como corre o meu corpo quando pressente os teus passos colados à porta da minha casa; quando os meus ouvidos alcançam a tua voz disfarçada pelo comunicador. Chegaste. Entras devagar, pedes licença. Descansa, aqui ninguém nos vê, somos nós: o que basta. Dispo-me da claridade do dia, espero abraçar-te, sinto o teu corpo cansado pelos anos; sinto o teu respirar ofegante tentando acompanhar a rapidez do meu. Ah, és tão bonito. Nunca poderás saber como estremeço quando oiço o teu nome nas ruas ou quando viajo acompanhada pela tua memória. Fica. Alimento-me do teu corpo, dou-te os meus anos em troca. Sugamo-nos noite após noite, descobrimo-nos no repetir dos dias. É isto, sabes. Olho-te uma última vez à janela. Talvez seja hora de me despedir. Vejo nos teus olhos, é a última vez que aí te sentas. Despedes-te do lugar, do frio que entra pelo quadrado envidraçado. Esse olhar que me lanças, também ele carregado de adeus, é o mais bonito que alguma vez me deste. Obrigada, vou guardá-lo. Talvez o emoldure nesse mesmo lugar, atrás de ti. E quando outro homem aí se sentar, vou olhar para ti e segredar-te baixinho: é para ti que me dispo.
Este texto está publicado na Rua de Baixo, na colectânea É Isto
terça-feira, 6 de maio de 2014
1,60m
Encontro a utopia quando te vejo. Os teus
olhos tão escuros e cerrados em mim, no meu corpo, atentos à mínima mudança de
estado. Queres ficar e agarras a minha mão, dedos finos, elásticos, que servem
de carícias nas noites tardias de cansaço, nos dias longos que pensam e te
lembram o correr dos anos. Utopia é ver-te afagar o meu cabelo, fazeres nós,
arrancares os excessos em queda. É abraçares-me e quase não sentires o meu
corpo, de tão pequeno é. A janela está aberta, corre vento e muros levantam-se lá foram. Ouvem-se gritos,
armas apontadas, sensibilidades esquecidas. É para nós, meu amor. Não vês? Não
vês que é para nós. Deixa-te ficar,
dizes-me. E eu descanso o meu 1,60m junto a ti, com os olhos postos no vidro
que ameaça trazer a morte. Ninguém nos vê,
sussurras. E não sabes que não são estes motins que me fazem chorar.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
exercício de distanciamento
Engulo-te em cada minuto que passa. Repara como já não te sobra sangue, repara como dei cabo do teu corpo, repara como és infeliz, repara como me odeias, repara como me aproveito de ti, repara como sugo o teu respirar, repara como me és indiferente, repara como finjo gostar que me abraces, repara como imito prazer, repara como gozo com a tua escrita, repara como te engano com os meus olhos, repara como saio da cama a meio da noite, repara como te destapo, reparo como proposito o frio nos teus pés, repara como não espero por ti para jantar, repara como te mato nos meus sonhos, repara como abandono a tua casa, repara como não me importo com a tua cara, repara como olho para outros homens, repara como abro portas a novos olhares, repara como deixo que me desejem, repara como converso com o mundo, repara como te deixo sozinho, repara como te abandono, repara como desisti.
terça-feira, 8 de abril de 2014
jogo de consola
Olho a tua cara de perfil. Tens os olhos atentos num jogo
qualquer que passa na televisão. Na boca, o cigarro, que provoca uma expressão
confusa embaraçada pelo fumo nos olhos. O cabelo preto tenta disfarçar o
desgaste dos anos, o casaco azul, o mesmo daquela tarde de Setembro. A tua boca
recorda-me um campo cheio de flores redondas, aperta o charro e espera os meus
beijos. A voz, a tua voz. Larga o jogo e vem comigo para casa, faz tanto tempo
que não te encontro na minha cama a meio da noite. Sinto falta de acordar e
sentir o teu corpo frio na insistência do destapar, do envolver do lençol. Onde
está a tua cara a olhar para a minha? Os teus pés que roçam nos meus, o teu
cheio a tabaco, a cansaço do dia e espera pelo amor nocturno. Onde estás? Fica só
mais um pouco.
quarta-feira, 26 de março de 2014
perder silêncios
Vou perdendo os silêncios a que durante anos me acostumei. Encontro as
diretrizes que acreditava desfeitas em nós complexos e tanta, tanta incerteza
do fim. Vejo-te na minha cama, respiras devagar, incomoda-te o meu braço sobre
a tua barriga, ajeitas, pensas que não vejo, pensas que não assisto à tua
manobra de perfeitarmos os nossos corpos em sintonia. Encosto o olho ao canto e
vejo que a manhã chegou: o quarto deixa de estar escuro, adivinho o tom do
despertador, aguardo a sua chegada dentro de alguns segundos, oiço vozes na
cozinha. O dia começou sem nós, vês como não fazemos falta? Deixa-nos ficar
aqui, estaremos prontos, assim, amanhã? Repete esse gesto que é apanhares o meu
despertador quando ele dispara e abraçares-me de seguida, beijas-me. Choramos
os dois, não choramos? Choramos por ter tido que dividir a noite e o amor pelas
horas de sono, que amanhã trabalhamos, há ensaios, há e-mails, há propostas. Agarra-me
um pouco mais. Não vou deixar-te ir.
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