sábado, 18 de janeiro de 2014

descer as escadas e não te encontrar


tão difícil abrir os olhos, mamã. quero descer as escadas da casa e encontrar-te no sofá, enroscada pela madrugada que se faz já tarde para quem mora longe. o teu olho a espreitar quando faço uma festinha no teu corpo, na esperança que estejas acordada e soltes aquele teu sorriso para mim, ao qual eu respondia com outro, não tao bonito quanto o teu. preparo-te as torradas (ou queres que seja a minha irmã a fazê-lo?, sei que preferes as dela) e o café com bastante açúcar. faço-te companhia enquanto como os meus cereais de mel e olho-te e quero fixar aquela imagem para sempre: tu, sempre tão linda. quando a hora de apanhar o autocarro chega, sou outra vez a menina que saía contigo pela mão, com uma mala azul às costas maior que eu, carregada de livros, letras, cores e tantos tantos sonhos. não, não esqueço o lanche, mamã. volto daqui a umas horas, volto para junto de ti. já falta pouco.


julho 2013

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

composição

Cai devagarinho o tempo dividido entre casas compostas anos a fio por pessoas passadas. Escuto o mármore que insiste em faltar; as pedras rolam sobre a calçada gasta de sapatos novos; o coração a bater e a pedir para sossegar; o corpo a querer sentar as mágoas habituadas a risos falsos de felicidade. Encontra-me o lugar onde deixei pousar memórias do que não vivi e sobrevive à minha inclinação de perder, de deixar perder, desculpa, de sair, de abandonar. É isso, não é? Tens medo. Eu também. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Cigarros na cama

Vejo o teu corpo repousado na minha cama. Há um movimento rotineiro que faz deambular este cobertor gasto e lembra-me os anos passados que ainda hão-de vir. A respiração ofegante habituada a quase trinta anos de tabaco não esconde o tremor do teu corpo quando sente as minhas mãos aproximarem-se no escuro que nos envolve noites a fio neste lugar. As tuas costas trazem-me aqueles muros altos que esperamos encontrar nos sonhos de precipícios; agarro-as, é sítio onde me agarrar, onde pousar a minha cabeça tombada para o lado perdido onde não encontro bóia.