quarta-feira, 9 de abril de 2014

exercício de distanciamento

Engulo-te em cada minuto que passa. Repara como já não te sobra sangue, repara como dei cabo do teu corpo, repara como és infeliz, repara como me odeias, repara como me aproveito de ti, repara como sugo o teu respirar, repara como me és indiferente, repara como finjo gostar que me abraces, repara como imito prazer, repara como gozo com a tua escrita, repara como te engano com os meus olhos, repara como saio da cama a meio da noite, repara como te destapo, reparo como proposito o frio nos teus pés, repara como não espero por ti para jantar, repara como te mato nos meus sonhos, repara como abandono a tua casa, repara como não me importo com a tua cara, repara como olho para outros homens, repara como abro portas a novos olhares, repara como deixo que me desejem, repara como converso com o mundo, repara como te deixo sozinho, repara como te abandono, repara como desisti.

terça-feira, 8 de abril de 2014

jogo de consola

Olho a tua cara de perfil. Tens os olhos atentos num jogo qualquer que passa na televisão. Na boca, o cigarro, que provoca uma expressão confusa embaraçada pelo fumo nos olhos. O cabelo preto tenta disfarçar o desgaste dos anos, o casaco azul, o mesmo daquela tarde de Setembro. A tua boca recorda-me um campo cheio de flores redondas, aperta o charro e espera os meus beijos. A voz, a tua voz. Larga o jogo e vem comigo para casa, faz tanto tempo que não te encontro na minha cama a meio da noite. Sinto falta de acordar e sentir o teu corpo frio na insistência do destapar, do envolver do lençol. Onde está a tua cara a olhar para a minha? Os teus pés que roçam nos meus, o teu cheio a tabaco, a cansaço do dia e espera pelo amor nocturno. Onde estás? Fica só mais um pouco.