domingo, 6 de maio de 2012

a Queima das Fitas e a "tradição académica" -
entrevista da Mais Superior a João Curvêlo


Por que é que não vais à Queima das Fitas? Que valores vês associados a ela com os quais não te identificas?
A Queima das Fitas é um dos vários momentos de um processo mais alargado. Este processo começa logo quando os estudantes chegam à universidade, com o ritual da praxe. Ou seja, começa mal logo desde o início. Há muita gente que diz que a praxe é uma forma de integração e, no caso da minha faculdade, até temos um reitor que acha que a praxe é um mal necessário. Na verdade, a praxe não integra coisa nenhuma e muito menos é necessária. É simplesmente uma forma de anular o pensamento crítico e de reproduzir uma série de valores que deviam ter ficado no passado: o machismo, a homofobia, o conservadorismo das mais variadas formas, a hierarquização das pessoas sem razão nenhuma. O preconceito em relação a tudo o que é diferente, portanto.

Sentes alguma espécie de pressão de outros estudantes para ir e para viver a “tradição académica”? Achas que existe essa pressão?
A pressão acontece todos os dias e de várias formas. Desde logo, há pressões evidentes e vários casos de violência têm chegado aos tribunais. Em alguns casos, tem mesmo havido condenações e atuação judicial sobre o agressores. Para além desses casos mais mediáticos, acredito que haja muitas pessoas que não denunciam por medo ou receio de represálias. E há a ideia de que, se não fores à praxe e não seguires os rituais da “tradição académica”, nunca terás amigos na faculdade. Isto é absurdo: as pessoas também tinham amigos antes de haver esta coisa da “tradição académica”. E vão continuar a ter quando finalmente isto passar. Mas há um outro tipo de pressões, mais perigosas porque mais silenciosas, que estão relacionadas com a própria imagem da universidade que foi sendo construída. É sempre reproduzida uma imagem única da universidade, como se não houvesse espaço para a diversidade e para as pessoas poderem ser quem são. Se pensares bem na própria iconografia associada à universidade, vês que a imagem de um estudante que nos vem à cabeça é um tipo vestido de preto e com um canudo na mão… Isto também tem um peso enorme e cria referências. E estas referências são-nos impostas todos os dias, não resultam da vivência dos estudantes.

Se o cartaz te agradar e os teus amigos quiserem ir, reconsideras ou não vais mesmo? É que, convenhamos que há Semanas Académicas que podiam ser um festival normal…
Tens razão. Há Semanas Académicas que quase parecem ser festivais normais, e isso também devia merecer alguma reflexão. A universidade não devia ser antes um espaço alternativo à lógica do mercado que domina os festivais? Não tenho nada contra o facto de as pessoas se divertirem, bem pelo contrário. Acho é que as universidades devem ser espaços onde as pessoas experimentam coisas diferentes – para a lógica mercantilista, já nos chega o resto da sociedade.

Como é que explicas que haja faculdades, provavelmente não a tua, que dão tolerância ou mesmo pausas letivas para o período da Semana Académica? Até que ponto é que isso não marca a vida de um estudante?
Acho que há faculdades se preocupam mais com as Semanas Académicas do que com os estudantes. Aliás, para ser estudante é preciso pagar e, muitas vezes, hipotecar o futuro: se houvesse mais preocupação em garantir que os estudantes continuam a sê-lo, se houvesse ação social para os que precisam, não haveria certamente tanta gente a desistir do ensino superior.

Achas que este tipo de iniciativas baixa, ou prejudica, a produtividade dos alunos do ensino superior?
Acho que é indiferente. Não tenho um discurso conservador, não sou daquelas pessoas que dizem que a universidade é um espaço só para estudar. Um bom aluno aprende tanto nas aulas como fora delas. E ainda bem que é assim. Acho que é preciso reinventar o sentido da universidade, e acrescentar-lhe pensamento crítico. Agora, tudo isto só faz sentido se for feito em liberdade e com liberdade. Ou seja, é exatamente o contrário das “tradições” que nos condicionam.





2 de maio de 2012