Houve um tempo em que ele olhou para ela e sorriu. Ou melhor, em que ele sorria para ela, quando tinha coragem de a olhar, quando não escondia a cara ao vê-la descer a rua em direcção a casa. Aconteceu-lhe muitas vezes imaginar-se a falar com ela, a perguntar pela vida, a levar-lhe os livros e a mochila na sua bicicleta, mas a coragem nunca lhe deixou abrir a boca para dizer uma sequer palavra. Diziam-lhe que não servia para ela, ela era diferente, não era dali, não ia ficar ali. A terra era demasiado pequena para os pés que carregavam o seu corpo que, noite a fio, ele imaginava junto do seu. Mas as noites eram sempre pequenas para tudo aquilo que ele lhe queria contar, dizer, mostrar. Havia um país que ela não conhecia e era o dele, um país bem longe dali, pobre, com pronúncia estranha. Mas ela não conhecia, ela não o conhecia, e ele acabou enganado por todas aquelas pessoas que o avisaram para se afastar, que não havia tempo para beber um café ou passear pelo verde que rodeava terra. Ao menos soubesse ele que, bem perto dali, essa menina sonhava com o dia em que ele apareceria na sua bicicleta e lhe levaria os livros e lhe daria uma flor. Ela foi-se embora daquela terra, anos depois, com a memória de ter havido um rapaz que lhe sorriu. E ele, ele continuou lá, com a certeza que um dia amou, mas foi a menina errada.