Melancolia, Munch
A última crónica de Valter Hugo Mãe no JL deu-me voltas ao estômago; ele, que já não anda muito bem desde que recebe, de oito em oito horas, a visita de um anti-inflamatório, ficou agora ainda pior. O texto fala de José Alberto, um homem que durante não sei quantos anos lutou por erguer o sonho do seu pai: construir uma casa museu. A luta, que tem sempre dois lados, ou mais, foi com a Câmara Municipal de Vila do Conde, sim, essa, que recebe o festival de curtas-metragens. Parece que as conversas entre a instituição e o detentor do sonho eram sempre baseadas em promessas, falsas, e criação de expectativas que nunca chegavam a passar do secretário para o gabinete das obras, ou outro nome qualquer designado para, numa câmara, pôr as coisas de facto a andar. Nada disto importava muito se houvesse mais anos para correr e mais vida onde a esperança se pudesse alimentar. Mas essa espera finalmente terminou, com a morte do próprio José Alberto, filho de Julio/Saúl Dias e amigo de Valter. Esta ideia de morrer sem cumprir aquilo que estávamos destinados é o que realmente torce o meu estômago já doente. Talvez por não acreditar que um dia a sua alma voltará ao nosso mundo (e, acaso tal for possível, para quê?), talvez por cada vez ser mais descrente na boa vontade alheia. Talvez por não crer que os outros liguem, passo a expressão, a peva para os nossos sonhos. Mas o texto, esse, deu-me vontade de arregaçar as mangas e partir para Vila do Conde, gritar aos ouvidos de quem não me quisesse ouvir e esganar e bradar e sacudir e amassar e e e e.
Resta-me a esperança que se faça jus à vontade de José Alberto e que, de alguma forma, eu e tu e todos nós possamos contribuir para tal.
