segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sonhos que (não) se erguem

Melancolia, Munch


A última crónica de Valter Hugo Mãe no JL deu-me voltas ao estômago; ele, que já não anda muito bem desde que recebe, de oito em oito horas, a visita de um anti-inflamatório, ficou agora ainda pior. O texto fala de José Alberto, um homem que durante não sei quantos anos lutou por erguer o sonho do seu pai: construir uma casa museu. A luta, que tem sempre dois lados, ou mais, foi com a Câmara Municipal de Vila do Conde, sim, essa, que recebe o festival de curtas-metragens. Parece que as conversas entre a instituição e o detentor do sonho eram sempre baseadas em promessas, falsas, e criação de expectativas que nunca chegavam a passar do secretário para o gabinete das obras, ou outro nome qualquer designado para, numa câmara, pôr as coisas de facto a andar. Nada disto importava muito se houvesse mais anos para correr e mais vida onde a esperança se pudesse alimentar. Mas essa espera finalmente terminou, com a morte do próprio José Alberto, filho de Julio/Saúl Dias e amigo de Valter. Esta ideia de morrer sem cumprir aquilo que estávamos destinados é o que realmente torce o meu estômago já doente. Talvez por não acreditar que um dia a sua alma voltará ao nosso mundo (e, acaso tal for possível, para quê?), talvez por cada vez ser mais descrente na boa vontade alheia. Talvez por não crer que os outros liguem, passo a expressão, a peva para os nossos sonhos. Mas o texto, esse, deu-me vontade de arregaçar as mangas e partir para Vila do Conde, gritar aos ouvidos de quem não me quisesse ouvir e esganar e bradar e sacudir e amassar e e e e. 

Resta-me a esperança que se faça jus à vontade de José Alberto e que, de alguma forma, eu e tu e todos nós possamos contribuir para tal. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

(nome)

desconhece-se a autoria da fotografia. estava perdida na gaveta fechada há anos naquele cubículo de formas arrendondadas sem vida. era a preto e branco, ainda se lembra, e tinha o mar por trás, ou era jardim?, qualquer coisa com vida. há tanto tempo não abria a gaveta que a julgava perra, sem movimento nem força para deslizar os pequenos cinco centímetros que fossem, onde coubesse uma mão pequena - a sua - que, entrando naquele baú escuro de recordações, desenrolaria círculos infindáveis na busca daquele papel. 

o ano é de 19... e mais não se percebe. podia-se tentar adivinhar mas imaginemos que ficava-se muito longe da realidade. isso não podia ser. não podemos dar datas às coisas que não conhecemos. ou melhor, datas falsas. ou, por outro lado, não devemos dar datas a coisa nenhuma.

a autoria, essa, faz subir o cordão da humildade. essa tem que aparecer, nem que seja num cantinho, à margem, quase envergonhada. mas, lá está, desta fotografia ninguém sabe.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Não sabe se é do vento que teima em inspirar, se é das partículas de pó que se amontam no lado esquerdo da cabeceira do quarto onde já não dorme. Os móveis permanecem no mesmo sítio, a escada em caracol perpetua-se numa tentativa de chegada ao céu, a cama velha e com mantas gastas, as molduras com retratos cheios de cor esbatida. Os livros, sempre os mesmo livros. Já não compra livros, habituou-se a frequentar a biblioteca da cidade, a única, e pede os mesmos livros que tem em casa. Patético. Mas ele não sabe ler. Isso não importa.