sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dixit # 1

Dispo-me
Estás sentado junto à janela. Gostas desse lugar? Sentas-te sempre aí quando aqui chegas. Respiras o fumo do cigarro, sabe-te bem. Queixas-te da vida que deixas lá fora e sorrio para ti: convido-te a ficar. É só um quarto, o meu quarto, lugar onde podemos repousar. Estás sentado junto à janela e olho-te com admiração. Nunca saberás como corre o meu corpo quando pressente os teus passos colados à porta da minha casa; quando os meus ouvidos alcançam a tua voz disfarçada pelo comunicador. Chegaste. Entras devagar, pedes licença. Descansa, aqui ninguém nos vê, somos nós: o que basta. Dispo-me da claridade do dia, espero abraçar-te, sinto o teu corpo cansado pelos anos; sinto o teu respirar ofegante tentando acompanhar a rapidez do meu. Ah, és tão bonito. Nunca poderás saber como estremeço quando oiço o teu nome nas ruas ou quando viajo acompanhada pela tua memória. Fica. Alimento-me do teu corpo, dou-te os meus anos em troca. Sugamo-nos noite após noite, descobrimo-nos no repetir dos dias. É isto, sabes. Olho-te uma última vez à janela. Talvez seja hora de me despedir. Vejo nos teus olhos, é a última vez que aí te sentas. Despedes-te do lugar, do frio que entra pelo quadrado envidraçado. Esse olhar que me lanças, também ele carregado de adeus, é o mais bonito que alguma vez me deste. Obrigada, vou guardá-lo. Talvez o emoldure nesse mesmo lugar, atrás de ti. E quando outro homem aí se sentar, vou olhar para ti e segredar-te baixinho: é para ti que me dispo.




Este texto está publicado na Rua de Baixo, na colectânea É Isto

terça-feira, 6 de maio de 2014

1,60m


Encontro a utopia quando te vejo. Os teus olhos tão escuros e cerrados em mim, no meu corpo, atentos à mínima mudança de estado. Queres ficar e agarras a minha mão, dedos finos, elásticos, que servem de carícias nas noites tardias de cansaço, nos dias longos que pensam e te lembram o correr dos anos. Utopia é ver-te afagar o meu cabelo, fazeres nós, arrancares os excessos em queda. É abraçares-me e quase não sentires o meu corpo, de tão pequeno é. A janela está aberta, corre vento e  muros levantam-se lá foram. Ouvem-se gritos, armas apontadas, sensibilidades esquecidas. É para nós, meu amor. Não vês? Não vês que é para nós. Deixa-te ficar, dizes-me. E eu descanso o meu 1,60m junto a ti, com os olhos postos no vidro que ameaça trazer a morte. Ninguém nos vê, sussurras. E não sabes que não são estes motins que me fazem chorar.