O meu corpo está frio.
Começo a não conseguir distinguir entre "estar" e "ser". As formas verbais confundem-me as artérias que, a custo, bombeiam um coração dado morto.
O meu corpo está frio.
Não sinto os pés que caminham na tua direcção. As mãos seguram umas luvas rotas, deixo-as cair e não me apercebo. O frio instalou-se e nenhuma luz, nem calor.
O meu corpo está frio.
Sinto-o hirto numa posição desconfortável. Obrigo-te a beijar-me: gosto do ar quente que trazes à minha boca. Sou quente por instantes. Luminosa.
O meu corpo está frio.
E eu já nem vejo a minha cara por trás do tapete de gelo.
sábado, 23 de novembro de 2013
JOGO: 2
Belisca-me a memória quando adormeço. A boca sem força para rir, os olhos sem vontade de colorir as pupilas, os braços amarrados à força do vazio circundante. Liberta-me antes que me prenda. Sacode-me antes que o meu corpo amoleça na tua cama. Corto o cabelo para que não sobrem rastos meus no teu corpo, lavo-me, arranco a pele até o teu cheiro se confundir com uma marca barata de loção. Perdoa-me. Não sei ficar.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
JOGO: 1
Despeço-me em silêncio. O lugar está vazio, os copos enchem-se, ouvem-se risos e combinações. Vemos-nos amanhã? Pergunto-me e solto as cordas que me amarram, que vincam a pele branca e rosada dos dias frios. Tantos dias frios. Olho-te como se te pedisse, não, como se te implorasse, que trepes estas paredes precocemente edificadas, que sejas criança e saltes outra vez o muro, o meu muro. Ah, percorro estas esta estrada batida cheia de placas assinalantes. Marcam-se caminhos, nomeiam-se povoações - fosse eu uma pedra pronta, livre, apta para ser jogada.
Tantos dias a ser jogada.
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