quarta-feira, 25 de abril de 2012

"O meu único objetivo de vida é modestíssimo: não faço a menor ideia se aquilo que eu defendo vai fazer caminho, ou não. O socialismo ou o comunismo não são nenhum destino. Pelo que a gente vê, até é pouco provável que aconteça... Acho que a Humanidade está mais próxima de se destruir do que de construir um amanhã que canta. Não está nada escrito. Mas há uma coisa que sei: ao chegar ao fim da vida, quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade. "
 

Miguel Portas

sábado, 21 de abril de 2012

Primavera

"Algo me diz que há mais amor aqui. Lá fora só menti, eu já fui de cool por aí, somente só, só minto só. Hei-de te amar, ou então hei-de chorar por ti. Mesmo assim, quero ver te sorrir e se perder, vou tentar esquecer-me de vez, conto até três, se quiser ser feliz."


terça-feira, 10 de abril de 2012

Manuel Amado
"Encenações"

a linha acaba quando

A linha acaba quando passa por dentro. E a vida (ou o amor?) é mesmo assim: por muito que se ceda, por muito que a ganga se dobre, por mais que afirme o vinco com o ferro, a linha sai torta e tenho que começar de novo. As costuras de lado estão novas mas imagino-as já daqui a uns meses, gastas, descosidas, sem amor. Às tantas, o tamanho já não vai servir, por uma ou outra razão, e aí será preciso arrumá-las a um canto. Afinal, o amor (ou a vida?) é mesmo assim.

Mas isto fui eu a fazer uma bainha. Pouco mais.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Improvisação (9-4-2012)

Podemos começar. Duas raparigas estão sentadas, dois rapazes dividem-se pela sala: um caminha ansiosamente à volta das sentadas, o outro procura a gravata ideal no meio de um monte delas, desarrumadas, no chão. Parece alongar-se no tempo então alguém pergunta se demora. Calma, é o nosso funeral, não podemos ir de qualquer maneira. Levo vestido ou saia? Ele lembra-me que a minha mãe não iria gostar que eu fosse de vestido. Recordo-me porquê? Afinal porque estamos ali? Ah, já sei, uma de nós não consegue sair da cadeira, está presa, talvez tenha morrido atada. Terá? Certo é que, aquela que não sabe se leva vestido ou saia, não consegue ler e agora está revoltada porque os olhos já não lêem, o outro continua a escolher a roupa para o seu funeral, a outra continua sentada e o outro lamenta-se por nunca ter usado gravata: como teria sido possível em 20 nunca ter usado gravata?


domingo, 8 de abril de 2012

gaveta

Estive a vasculhar coisas antigas. Encontrei perdidas na gaveta uma série de recordações que são para estar onde estão: lá, bem no fundo. Lembraram-me os tempos em que a minha altura era mínima, em que os sonhos começavam a ser grandes, em que andava na escola a aprender matemática e estudo do meio, em que usava uma mochila às costas pesada cheia de livros e cadernos. A mochila era azul e tinha letrinhas espalhadas e era tão, tão grande! Às vezes imagino esta fotografia: eu, pequena, de vestido e collants brancos, a ir para a escola de mão dada com a minha mãe, a mala às costas, maior que eu, e só se veria os pés e o cabelo curtinho com gancho de lado. Mas todas estas recordações vieram-me da tristeza (ou revolta?) de teres feito parte da minha vida. Não suporto o facto de teres estado aqui e agora teres desaparecido. Teres-me feito pensar que ficarias aqui para sempre e afinal, afinal... És o que eu sei. Uma desilusão. Não quero saber das prendas que todos os anos tentas oferecer pelo Natal, nem dos falsos arrependimentos, nem das tuas palavras mansas cheias de falsidade. Graças a ti, ao que fizeste, é-me quase impossível acreditar que as pessoas ficarão aqui para sempre. Graças a ti, andei perdida no meio de confusões que tiraram um pedaço grande da minha vida, dos meus sonhos. Graças a ti, não consigo acreditar que as pessoas mudam. E é somente graças a ti que não te perdoo.

Quase nevava lá fora, o vento abanava as casas e o frio fazia os joelhos tremerem.
Mas não fazia mal: a porta da livraria estava aberta, como sempre estava,
e lá dentro esperavam-me outros mundos.

sábado, 7 de abril de 2012

AS JUNÇÕES, por Hugo Milhanas Machado

Deixo-vos um pedaço da crítica de Henrique Manuel Bento Fialho ao poemário AS JUNÇÕES (Artefacto, 2010):

"(...) Resulta impressionante a forma como a anomalia é integrada sem esforço, deixando, assim, de ser anómala, passando a ser um terreno fértil onde a linguagem rebenta e dá os seus frutos. É um poema sobre o que ficou para trás (sol, praia, mar, alegria, marinheiros, cor, cervejas, beijos, etc.), reflectindo uma alegria encalhada na tristeza da perda (...)."

ver artigo completo aqui

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Atlas

Foi precisamente há cerca de cinco meses que me meti naquela aventura. No cartaz pediam pessoas de todas as profissões, com ou sem experiência em palco. Enviava-se um e-mail com uma espécie de carta de motivação e currículo e aguardava-se resposta. Passadas umas semanas, recebi a feliz notícia que tinha sido aceite. Começaram então os ensaios no espaço Alkantara, o calor abrasador do fim de Verão a bater nas ruas barulhentas de Santos. Os ensaios eram duas vezes por semana e, a cada dia, conhecia-se pessoas novas. O velho pastor, que me deu uma fotografia sua no seu atelier de trabalho, o enfermeiro, que mais tarde reencontrei no S. Luiz e várias outras vezes pela rua, o jornalista que havia sido da minha Faculdade, o actor que agora vendia gelados, e por aí fora. O espectáculo começava a montar-se e os nervos cresciam com o aproximar da estreia no Teatro Maria Matos. Veio o ensaio geral, a televisão, as entrevistas, a descoberta dos camarins, a primeira entrada pela Porta dos Artistas, o passe de livre circulação no Teatro. Veio a estreia, as palmas, as flores. O jantar de despedida, o brinde e a lágrima fugitiva no canto do olho. E agora, veio-me tudo isto, em forma de lembrança bonita.

Afinal, se um incomoda muita gente, 100 incomodam muito mais.


O pão

Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.


Rui Costa (1972-2012)
em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves