Foi precisamente há cerca de cinco meses que me meti naquela aventura. No cartaz pediam pessoas de todas as profissões, com ou sem experiência em palco. Enviava-se um e-mail com uma espécie de carta de motivação e currículo e aguardava-se resposta. Passadas umas semanas, recebi a feliz notícia que tinha sido aceite. Começaram então os ensaios no espaço Alkantara, o calor abrasador do fim de Verão a bater nas ruas barulhentas de Santos. Os ensaios eram duas vezes por semana e, a cada dia, conhecia-se pessoas novas. O velho pastor, que me deu uma fotografia sua no seu atelier de trabalho, o enfermeiro, que mais tarde reencontrei no S. Luiz e várias outras vezes pela rua, o jornalista que havia sido da minha Faculdade, o actor que agora vendia gelados, e por aí fora. O espectáculo começava a montar-se e os nervos cresciam com o aproximar da estreia no Teatro Maria Matos. Veio o ensaio geral, a televisão, as entrevistas, a descoberta dos camarins, a primeira entrada pela Porta dos Artistas, o passe de livre circulação no Teatro. Veio a estreia, as palmas, as flores. O jantar de despedida, o brinde e a lágrima fugitiva no canto do olho. E agora, veio-me tudo isto, em forma de lembrança bonita.
Afinal, se um incomoda muita gente, 100 incomodam muito mais.