sábado, 31 de agosto de 2013

sábado, 24 de agosto de 2013

sou um postal

Nem pensas em protestar porque eu sempre fui um postal recebido de forma natural e que te faz medo. Estampas a claridade que preside à existência porque essa é a tua vocação. Alagas pela cultura fora e o futuro avermelhado é mais verde que tanto amor. Falas livre pelo espaço e estas manchas vão-se embora. Até que sim. Dás-me tontura na saudação do corpo. O pesadelo neste lugar de luta. Solitário, recolhes o vento que provém e estou ouvindo, não resisti à tentação: as pedras vão rolar sobre mim.  

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

folga à sexta

Encolheu os ombros e disse: vamos dançar? Com os olhos de geração órfã, pôs-se em posição de fim. Sofia olhou Álvaro, ele sorria. Feliz e moço. “Passo a folgar à sexta”.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

restos

Inspirado em Crave de Sarah Kane. O texto foi escrito em jeito de carta, a um amor antigo. Com algumas alterações, publico hoje aqui. Porque afinal, desse amor, foi isto que restou.


e ver os teus olhos brilharem quando falas de um filme do qual gostas muito e ter orgulho das coisas que sabes e fazer inveja às outras raparigas por não te conhecerem como eu te conheço e olhar para os teus olhos verdes e para a tua barba irregular e para o teu cabelo que cresce incrivelmente rápido e pensar que és tão bonito e que sorte eu tive em olhares para mim e querer conhecer os teus pais e falar-te das minhas coisas e saber que gostas das minhas paixões e querer ser actriz dos teus filmes e querer ser modelo das tuas fotografias e não gostar quando elogias outras miúdas porque sei que as podes ter a qualquer altura e morrer de ciúmes quando dizes que ela é mais bonita do que eu e querer bater-te quando não me dás elogios e ficar triste quando me desprezas e desiludida quando não me dizes o que eu quero ouvir e lembrar-me da tua voz a meio da noite e querer ser tua amiga e confidente e querer ocupar um lugar na tua vida que imaginei ser meu para sempre e recordar-me dos planos e dos sonhos e do nome da nossa primeira filha e pensar que é melhor assim porque sim e convencer-me que estou bem quando não estou e achar que és mau quando me fazes chorar e inútil quando me deixas ir embora (...).


(março 2012)
Se tudo não fosse tingido de branco. E se brincássemos às cores.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

6/7

Este texto está publicado na edição 75 do jornal Os Fazedores de Letras


Sala de espera

A sala branca e tão fria. As paredes tão gastas e mal tratadas. As mesas castanhas de madeira lembram o passar dos anos. As portas abrem-se facilmente, medo de sufoco. A máquina já nem tem café, esgotada pelos seres nervosos e incertos que todos os dias aqui aguardam melhoras, notícias ou, muitas vezes, que a morte passe finalmente por eles. Não sei há quanto  tempo estou sentada neste sofá preto que incomoda as costas e grita por um lugar novo; não  sei há quanto tempo observo o rapaz da minha idade preso a uma máquina de oxigénio e que,  volta na volta, solta um som estridente, lembrando as enfermeiras que é hora de pôr um saco novo no andarilho. Também à minha frente está a menina a pintar livros a preto e branco. Com a mesa cheia de lápis de cor, olha fixamente para aqueles contornos que alguma máquina imprimiu no papel reciclado de capa amarela. O pai divide os olhos entre a televisão e a filha, sempre atento, sempre esperançoso, sempre pai. Talvez olhe a televisão e nem veja nada. Às vezes acontece-me isso, enquanto as horas passam nestas salas de espera. Conheço-as todas, todos os cantos e manhas. A máquina que rouba moedas de 10 cêntimos, a televisão que não fixa na Sic, a cadeira com as costas partidas e que evito sempre que posso. Mas tudo isto aconteceu hoje e amanhã será um novo dia. Ou mesmo que seja igual, todos nós, aqui, o encaramos de forma diferente. Porque a pessoa que aqui está, que aqui dorme e nos espera no horário da visita, sobreviveu o suficiente para desejar bom dia. E isto é assim, é assim que tem que ser. Até um dia. 

pés descalços

Descalço o coração tão amedrontado. As meias que trago nos pés não fazem frente ao frio que, a pouco e pouco, se instala no meu corpo. O mar aqui ao lado parece-me agora tão pequeno, perdido nesta imensidão de saudade de alguém que já não volta.

domingo, 18 de agosto de 2013


KITSUNE (O ESPÍRITO DA RAPOSA)
JOÃO PENALVA
(2001 - VIDEO/FILM: 55 MIN., COLOUR, SOUND)

poema de Vasco Gato (1978)

Se alguém disser

se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o  meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.




in «Um Mover de Mão», pág. 21
Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

LER 5/13

Ao vasculhar e-mails antigos e documentos metidos em sub-pastas, encontro este texto, publicado na LER de maio deste ano.


Exercício de estilo

Só pelos cheiros mágicos a caminho. Isso é quanto basta. Não tem coragem de recusar; pensa se seria melhor entoar a palavra e trespassar o corpo. Não trabalhava. Os seus troncos vão no carro estrada acima e junta-se um amigo. Gritam em conjunto e dançam. Os dias mais insolentes são estes: conseguiremos chegar bem a casa? Bate palmas e observa-me em disfarce. Lê-me o espírito na bizarra companhia de um miradouro atulhado de pássaros. Teria sido melhor levar-me a alma? O mar corta em frente e o ferry cansa-se de esperar. Lá dentro, quarto vazio. E aguardo o oceano, centro do universo.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

acenda-se velas.


(em Repitam a seguir a mim, 2011)



Corria o ano de 2009 quando nasceu o Grupo de Teatro Telhado de Zinco Frio, instalado no sempre quente/sempre frio sótão do Liceu Camões. Um grupo de jovens, poucos, juntavam-se a uma actriz com A grande para, em conjunto, levar temas e discussões à escola. Vieram várias aulas, encontros, desistências, triunfos, gargalhadas, risos, choros, atrasos, atrasos e muitas, muitas palmas. Em 2010 o Grupo presenteou a comunidade escolar e arredores com I, You, She, Together, inspirada no hino madonniano, em que "não me interessa que sexo tens". Com referência a filmes, músicas e textos, o Grupo mostrou, logo aí, uma forma diferente de "pegar" no material e de o apresentar. Esta é talvez das características mais salientes deste grupo. Os actores/alunos não se maquilham. Estão vestidos de preto, cor neutra, durante os ensaios e as apresentações. Fazem uso de candeeiros lá de casa, das panelas, das pipocas, das tendas de campismo, e levam vida àquele sótão sempre quente/sempre frio/sempre poeirento. Em 2011 foi a vez de Repitam a seguir a mim, um nome curioso e que saltava a cerca numa das primeiras cenas, ou sketches, da apresentação: uma oração em torno dos bebés que nunca chegaram a nascer. Os actores, três raparigas e um rapaz, sentados à mesa. Havia ainda Abel Neves, e o drama da miúda que não podia matar gatos (ou seria, na verdade, outra coisa?), da declaração de amor inesgotável antes da porta bater ou a promessa de uma revolução em paralelo com um quadro em slow-motion, ao vivo, com os actores, novamente à mesa, de volta de um balde de pipocas (pipocas essas que fizeram as delícias do público no final do espectáculo). Porque o teatro é transformar e debater, o pano não caía. Os actores levantavam-se e convidavam o público a conversar. Perguntas, questões, beijinhos, palmas outra vez.

Mas isto foi em 2011. Foi a última representação do Grupo. Agora o Telhado de Zinco Frio, após uma longa pausa condicionada por cortes, atrasos, burocracias, quer voltar, seja de que forma for. Para isso, precisa de pessoas activas, que queiram trabalhar, fazer teatro ou, como dizem eles, "zincar".

Da minha parte, não tenho dúvidas. É-lhes merecida essa oportunidade.

(facebook do Grupo aqui)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

CÃO: #2

O ofício das frustrações das quatro horas. Relações pronunciadas volteavam na memória. Tanta instrução e injustiça em roucos sons. A escuridade das velhas cóleras e víamo-las no mar tépido e nada nos já era familiar: ainda não tinha nascido a aguardente.

CÃO: #1

Desesperas na minha presença. Cuidado, há poucos dias estavas muito pobre. Escolheste o meu grotesco chinês para fugir dos soldados. Aceita-me. Para quê? Seremos companheiros daqueles dias aromáticos.