a Queima das Fitas e a "tradição académica" -
entrevista da Mais Superior a João Curvêlo
Por que é que não vais à
Queima das Fitas? Que valores vês associados a ela com os quais não te
identificas?
A
Queima das Fitas é um dos vários momentos de um processo mais alargado. Este
processo começa logo quando os estudantes chegam à universidade, com o ritual da
praxe. Ou seja, começa mal logo desde o início. Há muita gente que diz que a
praxe é uma forma de integração e, no caso da minha faculdade, até temos um
reitor que acha que a praxe é um mal necessário. Na verdade, a praxe não integra
coisa nenhuma e muito menos é necessária. É simplesmente uma forma de anular o
pensamento crítico e de reproduzir uma série de valores que deviam ter ficado no
passado: o machismo, a homofobia, o conservadorismo das mais variadas formas, a
hierarquização das pessoas sem razão nenhuma. O preconceito em relação a tudo o
que é diferente, portanto.
Sentes alguma espécie de
pressão de outros estudantes para ir e para viver a “tradição académica”? Achas
que existe essa pressão?
A
pressão acontece todos os dias e de várias formas. Desde logo, há pressões
evidentes e vários casos de violência têm chegado aos tribunais. Em alguns
casos, tem mesmo havido condenações e atuação judicial sobre o agressores. Para
além desses casos mais mediáticos, acredito que haja muitas pessoas que não
denunciam por medo ou receio de represálias. E há a ideia de que, se não fores à
praxe e não seguires os rituais da “tradição académica”, nunca terás amigos na
faculdade. Isto é absurdo: as pessoas também tinham amigos antes de haver esta
coisa da “tradição académica”. E vão continuar a ter quando finalmente isto
passar. Mas há um outro tipo de pressões, mais perigosas porque mais
silenciosas, que estão relacionadas com a própria imagem da universidade que foi
sendo construída. É sempre reproduzida uma imagem única da universidade, como se
não houvesse espaço para a diversidade e para as pessoas poderem ser quem são.
Se pensares bem na própria iconografia associada à universidade, vês que a
imagem de um estudante que nos vem à cabeça é um tipo vestido de preto e com um
canudo na mão… Isto também tem um peso enorme e cria referências. E estas
referências são-nos impostas todos os dias, não resultam da vivência dos
estudantes.
Se o cartaz te agradar e
os teus amigos quiserem ir, reconsideras ou não vais mesmo? É que, convenhamos
que há Semanas Académicas que podiam ser um festival
normal…
Tens razão. Há Semanas
Académicas que quase parecem ser festivais normais, e isso também devia merecer
alguma reflexão. A universidade não devia ser antes um espaço alternativo à
lógica do mercado que domina os festivais? Não tenho nada contra o facto de as
pessoas se divertirem, bem pelo contrário. Acho é que as universidades devem ser
espaços onde as pessoas experimentam coisas diferentes – para a lógica
mercantilista, já nos chega o resto da sociedade.
Como é que explicas que
haja faculdades, provavelmente não a tua, que dão tolerância ou mesmo pausas
letivas para o período da Semana Académica? Até que ponto é que isso não marca a
vida de um estudante?
Acho que há faculdades se
preocupam mais com as Semanas Académicas do que com os estudantes. Aliás, para
ser estudante é preciso pagar e, muitas vezes, hipotecar o futuro: se houvesse
mais preocupação em garantir que os estudantes continuam a sê-lo, se houvesse
ação social para os que precisam, não haveria certamente tanta gente a desistir
do ensino superior.
Achas que este tipo de
iniciativas baixa, ou prejudica, a produtividade dos alunos do ensino
superior?
Acho que é indiferente.
Não tenho um discurso conservador, não sou daquelas pessoas que dizem que a
universidade é um espaço só para estudar. Um bom aluno aprende tanto nas aulas
como fora delas. E ainda bem que é assim. Acho que é preciso reinventar o
sentido da universidade, e acrescentar-lhe pensamento crítico. Agora, tudo isto
só faz sentido se for feito em liberdade e com liberdade. Ou seja, é exatamente
o contrário das “tradições” que nos condicionam.
2 de
maio de 2012