terça-feira, 24 de dezembro de 2013

pequenez

Caio em desequilibro na tentativa frustrada de te alcançar. Coloco-me em bicos de pé e nada. Calço dois sapatos, talvez, talvez agora resolva o problema da pequenez dos sentidos grandes. Os meus. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

mão em contra

Um dia olhar para trás e ver a estrada percorrida em contra-mão. O coração prestes a saltar, a pedir licença para expulsar todos os inconvenientes trazidos por meses (contei-os hoje contigo) passados numa espécie de tenda. Uma tenda montada no seio de um universo reduzido a leis e conversas de café. A tenda tão bem apetrechada de sonhos, conversas, descobertas ritmadas por tempos e acordes diferentes. Os meus, os teus. E aquela voz que, como hoje, sussurra ao meu ouvido palavras escritas para tu as leres. Oiço cada uma delas e apetece-me carregar um quadro branco, vazio, às costas, onde poderás contribuir com sonetos e didascálias ainda por inventar. A estrada segue em contra-mão, meu amor. E a tenda tão bem montada. Contigo ao meu ouvido. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

papagaio de papel

O coração cada vez mais pobre à medida que o tempo enxovalha os passos tremidos que empurram dias, semanas, meses. Resta tão pouco quando a máscara cai à força de viver. Perde-se o sentido do acaso e entranha-se na dura realidade de não haver. Não haver mais. É bem triste isto de não haver. Esta ausência de uma presença que nunca chegou a ser minha. Fingi agarrar o que nunca poderia ser preso. Como um papagaio. Olha, como o papagaio daquela cigana que deixou voar o brinquedo de papel. Também eu, ou tu, perdemos. 

sábado, 23 de novembro de 2013

JOGO: 3

O meu corpo está frio.
Começo a não conseguir distinguir entre "estar" e "ser". As formas verbais confundem-me as artérias que, a custo, bombeiam um coração dado morto.
O meu corpo está frio.
Não sinto os pés que caminham na tua direcção. As mãos seguram umas luvas rotas, deixo-as cair e não me apercebo. O frio instalou-se e nenhuma luz, nem calor.
O meu corpo está frio.
Sinto-o hirto numa posição desconfortável. Obrigo-te a beijar-me: gosto do ar quente que trazes à minha boca. Sou quente por instantes. Luminosa.

O meu corpo está frio.
E eu já nem vejo a minha cara por trás do tapete de gelo.

JOGO: 2

Belisca-me a memória quando adormeço. A boca sem força para rir, os olhos sem vontade de colorir as pupilas, os braços amarrados à força do vazio circundante. Liberta-me antes que me prenda. Sacode-me antes que o meu corpo amoleça na tua cama. Corto o cabelo para que não sobrem rastos meus no teu corpo, lavo-me, arranco a pele até o teu cheiro se confundir com uma marca barata de loção. Perdoa-me. Não sei ficar.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

JOGO: 1


Despeço-me em silêncio. O lugar está vazio, os copos enchem-se, ouvem-se risos e combinações. Vemos-nos amanhã? Pergunto-me e solto as cordas que me amarram, que vincam a pele branca e rosada dos dias frios. Tantos dias frios. Olho-te como se te pedisse, não, como se te implorasse, que trepes estas paredes precocemente edificadas, que sejas criança e saltes outra vez o muro, o meu muro. Ah, percorro estas esta estrada batida cheia de placas assinalantes. Marcam-se caminhos, nomeiam-se povoações - fosse eu uma pedra pronta, livre, apta para ser jogada.

Tantos dias a ser jogada.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

correm alto na rua

Os carros corem alto na rua ingrime. A mesa para cinco ocupada só por dois corpos. 30 anos nos separam. Pai e filha. E aguardamos a chegada de quem perdemos, de quem já não volta. Vivemos à tua espera.

25 de outubro.

domingo, 20 de outubro de 2013

não.

O que eu te tenho traz calor ao profundo ar gélido onde aterrei um dia o meu corpo. Dizes-me ao ouvido "és bonita" e eu peço, baixinho, "não me deixes agora".

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

1

Percorro o teu corpo com os dedos engelhados. Não sei há quanto tempo oiço estes gritos de rapariguinha. Atiro para fora os golpes de dor infligidos, dispo as raças submersas em solidão e, finalmente, acordo e abraço-te como um chicote hirto. Recebes-me em excesso, dilatas os meus olhos e abandono-te, na insegurança das certezas, na firmeza da eterna dúvida. 

Cruzando o Marquês


Quem nos visse cruzar o Marquês teria com certeza inveja de nós. Veriam o grande aeródromo onde descansam os nossos corpos, os tocadores de tambor incluiriam nos seus versos carrilhões de vento inspirados nos nossos beijos. Atravesso contigo a passadeira e do vermelho e prata que nos chega dos sinais, agarras-me pela mão e conduzes os olhos ao céu. De repente, nulo a beleza e acordo. O meu rosto enrubescido está agora na Avenida 65, a casa, a nossa casa. Oculto-te os diabos instalados nos meus ombros, lanço-te um olhar convidativo e caminhamos, até desaparecermos na tarefa palpitante de ficarmos sós. Na esfera pesada do encontro. Na impossibilidade de um futuro a céu aberto.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

TIMBRE

Este texto está inserido num folhetim publicado em setembro de 2013 pelo jornal académico Os Fazedores de Letras


Que penso de ti? Conseguiste humedecer-me no serviço veterano de encenações horárias. Construíste a escada em caracol porque a luz que vinha de fora era incapaz de nos denunciar. Telefonaste-me e houve morte em mim. Obrigada. Arriscaste-me muito ao escrever a história contínua, sempre de olhos cerrados. A morte de um escritor, esse, com fastio de leituras antigas (se quero dançar?). Desafiaste-me para a cama e esperaste roubar-te alguma coisa no segundo andamento. Tiveste de pôr o cartaz de fora e perguntaste notícias de Portugal (tu não és patriota…). Respondi adequadamente, talvez me queiras consolar. O meu pescoço magro escorreu em ameaça. Estendi-te o maço de cigarros, fizeste que não e chamaste as vírgulas mal postas. Mas eu sou que nem o timbre, não sei que fazer. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

volta sem volta


Numa sala escura, dois corpos se juntam criando luz. Há preferências, dúvidas e ele pensa nos costumes, o que estará certo ou errado, o normal ou, por outro lado, "o estranho". Ela é educada, firme, intocável. Ele carrega ligaduras nos pulsos. O suicídio não correu bem e leva agora os dias que, entretanto, perderam a corrida. É isso. Os dias chegaram tarde, não saíram da meta sequer. "Não chegaram a correr", diz-lhe. 

Confias em mim? O que há para não confiar? Afinal, acabamos de nos conhecer. Quantas mais vezes nos veremos? Duas? Sete? Nunca mais? Não sabes, nem eu. Mas se dissermos as coisas ao contrário, talvez elas ganhem novo significado. Ou não?

Assinemos um contrato. Sim, aSSinemos. Tão giro, não é? Um S que não vive sem o outro S. Reparo nisto e vem-me à ideia do meu abcedário. Perdi-o. Não tenho o meu S, nem o meu C, nem o meu A. As letras perderam-se no caminho que eu desgastei com as horas incertas, com o medo de ganhar, com o medo de escolher. 

Vamos arrancas asas às moscas? Falo a sério. É um passatempo que me seduz. Tu sabes que eu sou diferente. Gosto disto. Da dor. Sou Anormal, eu sei. Tal como sei que achas que viver é chato, cansa não é? De repente, podemos pôr fim a tudo. E porque não pomos? Porque não acabamos já com isto?

Estás fodido. F O D I D O. Vá, diz em volta alta. Não és capaz. Ela não usa "esse tipo de linguagem". Foge das palavras. Como da vida. 18 anos preso, 18 anos fodido. E o outro que se atira da janela mas, bolas, já ninguém tinha paciência para as conversas, se tanto, daquele sujeito. Fodidos estão todos, diz ele.

Sabes como é. Um dia olha-se à volta e não há volta.




baseado na peça ATÉ AMANHÃ, de A.Branco

sexta-feira, 20 de setembro de 2013


Folhetim de boas vindas d'Os Fazedores de Letras.

Escrevem: 
Luis Azevedo Silva
Isabel Milhanas Machado
Hugo Milhanas Machado
Francisco Milheiro 





quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Lembras-te quando costumávamos dançar? Não, não, eu estou a falar a sério. Eu tenho saudades disso.

domingo, 1 de setembro de 2013

balada do adeus

A balada do adeus prepara os primeiros acordes. Logo que o possa negar, o homem só faz uma pergunta: quem se lixa, afinal? Ela esticara o círculo vicioso e deixara passar um rol de letras de coragem. Mandou os louvores e sentou-se. A brasileira regressou à pátria, sem qualquer possibilidade de adoçante. O náufrago deu-se com o homem, ela e a brasileira.

estranha forma de ver









agosto 2013

sábado, 31 de agosto de 2013

sábado, 24 de agosto de 2013

sou um postal

Nem pensas em protestar porque eu sempre fui um postal recebido de forma natural e que te faz medo. Estampas a claridade que preside à existência porque essa é a tua vocação. Alagas pela cultura fora e o futuro avermelhado é mais verde que tanto amor. Falas livre pelo espaço e estas manchas vão-se embora. Até que sim. Dás-me tontura na saudação do corpo. O pesadelo neste lugar de luta. Solitário, recolhes o vento que provém e estou ouvindo, não resisti à tentação: as pedras vão rolar sobre mim.  

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

folga à sexta

Encolheu os ombros e disse: vamos dançar? Com os olhos de geração órfã, pôs-se em posição de fim. Sofia olhou Álvaro, ele sorria. Feliz e moço. “Passo a folgar à sexta”.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

restos

Inspirado em Crave de Sarah Kane. O texto foi escrito em jeito de carta, a um amor antigo. Com algumas alterações, publico hoje aqui. Porque afinal, desse amor, foi isto que restou.


e ver os teus olhos brilharem quando falas de um filme do qual gostas muito e ter orgulho das coisas que sabes e fazer inveja às outras raparigas por não te conhecerem como eu te conheço e olhar para os teus olhos verdes e para a tua barba irregular e para o teu cabelo que cresce incrivelmente rápido e pensar que és tão bonito e que sorte eu tive em olhares para mim e querer conhecer os teus pais e falar-te das minhas coisas e saber que gostas das minhas paixões e querer ser actriz dos teus filmes e querer ser modelo das tuas fotografias e não gostar quando elogias outras miúdas porque sei que as podes ter a qualquer altura e morrer de ciúmes quando dizes que ela é mais bonita do que eu e querer bater-te quando não me dás elogios e ficar triste quando me desprezas e desiludida quando não me dizes o que eu quero ouvir e lembrar-me da tua voz a meio da noite e querer ser tua amiga e confidente e querer ocupar um lugar na tua vida que imaginei ser meu para sempre e recordar-me dos planos e dos sonhos e do nome da nossa primeira filha e pensar que é melhor assim porque sim e convencer-me que estou bem quando não estou e achar que és mau quando me fazes chorar e inútil quando me deixas ir embora (...).


(março 2012)
Se tudo não fosse tingido de branco. E se brincássemos às cores.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

6/7

Este texto está publicado na edição 75 do jornal Os Fazedores de Letras


Sala de espera

A sala branca e tão fria. As paredes tão gastas e mal tratadas. As mesas castanhas de madeira lembram o passar dos anos. As portas abrem-se facilmente, medo de sufoco. A máquina já nem tem café, esgotada pelos seres nervosos e incertos que todos os dias aqui aguardam melhoras, notícias ou, muitas vezes, que a morte passe finalmente por eles. Não sei há quanto  tempo estou sentada neste sofá preto que incomoda as costas e grita por um lugar novo; não  sei há quanto tempo observo o rapaz da minha idade preso a uma máquina de oxigénio e que,  volta na volta, solta um som estridente, lembrando as enfermeiras que é hora de pôr um saco novo no andarilho. Também à minha frente está a menina a pintar livros a preto e branco. Com a mesa cheia de lápis de cor, olha fixamente para aqueles contornos que alguma máquina imprimiu no papel reciclado de capa amarela. O pai divide os olhos entre a televisão e a filha, sempre atento, sempre esperançoso, sempre pai. Talvez olhe a televisão e nem veja nada. Às vezes acontece-me isso, enquanto as horas passam nestas salas de espera. Conheço-as todas, todos os cantos e manhas. A máquina que rouba moedas de 10 cêntimos, a televisão que não fixa na Sic, a cadeira com as costas partidas e que evito sempre que posso. Mas tudo isto aconteceu hoje e amanhã será um novo dia. Ou mesmo que seja igual, todos nós, aqui, o encaramos de forma diferente. Porque a pessoa que aqui está, que aqui dorme e nos espera no horário da visita, sobreviveu o suficiente para desejar bom dia. E isto é assim, é assim que tem que ser. Até um dia. 

pés descalços

Descalço o coração tão amedrontado. As meias que trago nos pés não fazem frente ao frio que, a pouco e pouco, se instala no meu corpo. O mar aqui ao lado parece-me agora tão pequeno, perdido nesta imensidão de saudade de alguém que já não volta.

domingo, 18 de agosto de 2013


KITSUNE (O ESPÍRITO DA RAPOSA)
JOÃO PENALVA
(2001 - VIDEO/FILM: 55 MIN., COLOUR, SOUND)

poema de Vasco Gato (1978)

Se alguém disser

se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o  meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.




in «Um Mover de Mão», pág. 21
Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

LER 5/13

Ao vasculhar e-mails antigos e documentos metidos em sub-pastas, encontro este texto, publicado na LER de maio deste ano.


Exercício de estilo

Só pelos cheiros mágicos a caminho. Isso é quanto basta. Não tem coragem de recusar; pensa se seria melhor entoar a palavra e trespassar o corpo. Não trabalhava. Os seus troncos vão no carro estrada acima e junta-se um amigo. Gritam em conjunto e dançam. Os dias mais insolentes são estes: conseguiremos chegar bem a casa? Bate palmas e observa-me em disfarce. Lê-me o espírito na bizarra companhia de um miradouro atulhado de pássaros. Teria sido melhor levar-me a alma? O mar corta em frente e o ferry cansa-se de esperar. Lá dentro, quarto vazio. E aguardo o oceano, centro do universo.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

acenda-se velas.


(em Repitam a seguir a mim, 2011)



Corria o ano de 2009 quando nasceu o Grupo de Teatro Telhado de Zinco Frio, instalado no sempre quente/sempre frio sótão do Liceu Camões. Um grupo de jovens, poucos, juntavam-se a uma actriz com A grande para, em conjunto, levar temas e discussões à escola. Vieram várias aulas, encontros, desistências, triunfos, gargalhadas, risos, choros, atrasos, atrasos e muitas, muitas palmas. Em 2010 o Grupo presenteou a comunidade escolar e arredores com I, You, She, Together, inspirada no hino madonniano, em que "não me interessa que sexo tens". Com referência a filmes, músicas e textos, o Grupo mostrou, logo aí, uma forma diferente de "pegar" no material e de o apresentar. Esta é talvez das características mais salientes deste grupo. Os actores/alunos não se maquilham. Estão vestidos de preto, cor neutra, durante os ensaios e as apresentações. Fazem uso de candeeiros lá de casa, das panelas, das pipocas, das tendas de campismo, e levam vida àquele sótão sempre quente/sempre frio/sempre poeirento. Em 2011 foi a vez de Repitam a seguir a mim, um nome curioso e que saltava a cerca numa das primeiras cenas, ou sketches, da apresentação: uma oração em torno dos bebés que nunca chegaram a nascer. Os actores, três raparigas e um rapaz, sentados à mesa. Havia ainda Abel Neves, e o drama da miúda que não podia matar gatos (ou seria, na verdade, outra coisa?), da declaração de amor inesgotável antes da porta bater ou a promessa de uma revolução em paralelo com um quadro em slow-motion, ao vivo, com os actores, novamente à mesa, de volta de um balde de pipocas (pipocas essas que fizeram as delícias do público no final do espectáculo). Porque o teatro é transformar e debater, o pano não caía. Os actores levantavam-se e convidavam o público a conversar. Perguntas, questões, beijinhos, palmas outra vez.

Mas isto foi em 2011. Foi a última representação do Grupo. Agora o Telhado de Zinco Frio, após uma longa pausa condicionada por cortes, atrasos, burocracias, quer voltar, seja de que forma for. Para isso, precisa de pessoas activas, que queiram trabalhar, fazer teatro ou, como dizem eles, "zincar".

Da minha parte, não tenho dúvidas. É-lhes merecida essa oportunidade.

(facebook do Grupo aqui)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

CÃO: #2

O ofício das frustrações das quatro horas. Relações pronunciadas volteavam na memória. Tanta instrução e injustiça em roucos sons. A escuridade das velhas cóleras e víamo-las no mar tépido e nada nos já era familiar: ainda não tinha nascido a aguardente.

CÃO: #1

Desesperas na minha presença. Cuidado, há poucos dias estavas muito pobre. Escolheste o meu grotesco chinês para fugir dos soldados. Aceita-me. Para quê? Seremos companheiros daqueles dias aromáticos.

domingo, 21 de julho de 2013

DENÚNCIA: #5

O comissário aproxima-se com as minhas obrigações; sou secretária de cúmplices: é a velha história de aprendiz; entretém os acontecimentos e fala com o senhor chefe; depende do que se considera e amanhã o mesmo; seja como for, em toda a minha vida; iça-o caridosamente e todos o pressentem; acreditava que eles existissem. 

DENÚNCIA: #4

Mais remédio, por favor.
Saciedade.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

DENÚNCIA: #3

Comovido vai ele.
Cheia vai ela.

Satisfeito vai ele.
Mulher vai ela.

Cúmplice vai ele.
Providencial vai ela.

Tranquilo vai ele.
Disfarçada vai ela.

Holmesco vai ele.
Especial vai ela.

DENÚNCIA: #2

Eram
culpados,
claro.

Abaixo
as pintas brancas:
estado.

Lábios.
chame-lhe
leitores

domingo, 14 de julho de 2013

DENÚNCIA: #1

Estareis subversivos ao coração. Deveria cortar a palavra sem pressas. Iriam fazer sessão extraordinária. Apareça. Se fizesse favor. 

O TRISTE

Chorei por estar esquecido disso. A ronda pelo prédio parecia ainda suja e de uma pessoa nossa amiga. Um cuidado que contemplava o sumptuoso pintor, de gabardina, frinchos, assombrações. Resolvê-las fazia do vento cúmplice, as pessoas de frente, a minha esperança, fazes-me falta. Tudo isto talvez nem seja connosco. Saberia como acariciava os ombros, como todos os maricas. Ínvia recriminação. A tua coragem teria de se esforçar como um rústico favor da tensão. A esta chamávamos, naquele serão feliz, marialvas. O assunto chamando-te e fizera o alvo dessas antecedentes. A viagem ampliada com romaria onde provavelmente se sabia antecipadamente ser preciso responder a pique a cada homem. É provável preocupar-se demasiado quando dormem todos, antigos terroristas. Os olhos tinham inchado, precisava de medir as lavras. 

domingo, 2 de junho de 2013

sábado, 2 de março de 2013

NUNCA


Nunca passei jornais
Nunca vi luto
Nunca estive na cantiga
Nunca precipitei casas
Nunca disse sanguessugas
Nunca cri sozinha
Nunca senti escadas
Nunca diverti palavras
Nunca gostei de pena
Nunca ignorei danças
Nunca rodei a velha
Nunca prometi festas
Nunca entreguei esperas
Nunca aceitei janelas
Nunca apanhei histórias
Nunca surgi em telhados
Nunca viajei na guerra
Nunca tratei da província
Nunca apareci de noite
Nunca confiei fósforos
Nunca voltei à descendência
Nunca inclinei o formigueiro
Nunca repeti certezas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O VIAJANTE: #4

2º actor: Ao contrário das ervas que estremecem, recomeça a aprendizagem dos nomes.
1º actor: E então descobre-se que há versos célebres na cidade de Lisboa...
2º actor: Visto de longe, dura a notícia e afinal não é muito grande a diferença entre instrução primária e gestos tão firmes e serenos.
1º actor: Deviam andar bem à vista as manhãs que enriquecem a memória, um pouco farta e habituada a uma doméstica uma vez por outra.
2º actor: Aplaudo. Os dicionários voltam a correr e as invenções renascem. Vimos de longe, apesar do céu contrário, e uma náusea na boca proporciona uma suculenta vontade de pistolas.
1º actor: Objectividade e pertinência.
2º actor: Era já o meio da tarde e a luz fez-se hipnótica, sozinha, imóvel, os bosques públicos, a protecção, a terra, aquelas solenes execuções de quarenta centímetros. Chamavam às origens mas nem tudo pode ser degradado.
1º actor: É natal.
2º actor: Longe.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O VIAJANTE: #3

Há pessoas que remedeiam palavras. Há foguetes que inventam lágrimas. Há mesas que sentam funcionários. Há marés que enchem toalhas. Há cabeças que apontam circuitos. Há rosas que têm asas. Há verdades que escolhem mentiras. Há rostos que têm olhos apagados. Há palavras que agravam solidões. Há gritos que servem a Pátria. Há certezas que anunciam histórias. Há portas que fecham gaiolas. Há gavetas que embrulham tempo. Há viagens que param perto de casa. Há intelectuais que salvam a inteligência. Há convicções que celebram autos-de-fé. Há crianças que morrem em redor da fogueira. Há calções que salvam a humanidade. Há ingénuos que dizem a verdade. Há quilómetros que obrigam a levantar. Há figuras que apalpam estátuas. Há moinhos que fabricam criados. Há males que são vitória, recheadas de carpideiras de mármore. 

O VIAJANTE: #2

Banham a pesada tristeza desta operação linguística que intriga as louças velhas quando uma voz dos jornais, harmoniosa e grave, colocada à entrada do jardim, de barriga ao ar, renuncia, quem me dirá porquê?, e diz: "D. Pedro entra sozinho nas medalhas onde o visitante repousa". E tens medo. Aproxima-se a negra sorte, esgrilando vontade de nos metermos na noite por causa de um acto em paz que se vai tornando em compassos e encorajando inimigas mortes. Decido por justaposição renunciar ao berço natal com que de novo dura a sorte em voz brincada. Para que ninguém inverte um caminho de fadas elegantes em expressão. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O VIAJANTE: #1

Deserto. Sobre gestos que, em sobressalto céptico, autoriam um velho e pesado ferro, melhor instrumento, enquanto se autoriza a luz a almoçar na fronteira onde, depois, se levantará a consciência plantada por esta falta de Pietro ou qualquer socorro à porta de saída que me resta. É alto e agrava o incidente. Baixas pressões. Mesmo sentado, começa a fraternidade onde o estádio se congrega, e de hoje não passa: no fim de contas, para quem?, se não fosse o espírito forte, rebocariam os seus gestos, parecidos com palavras e festas prolongadas para dentro. Unhas cortadas, penso eu, e perdidas num destino qualquer com ignorância e verdade a fechar. Impossibilidade envergonhada. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O AMANTE: #5

Mangas, descalça, títulos, dúvida, camarim, gangster, histórias, marfim, lugar, pergunta. Era impossível o motivo para assistir à cena diabólica e já muito velha. Não havia dúvida ou engano mas criar, lembras-te?, um "teatro de traduzir" no futuro e converter o meu pai em palavra e bebida. Oh!, obter uma vitória apenas, ou melhor, não dar feição à verdade. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

O AMANTE: #4

Devia ser igualmente débil a mão que abria a porta, aludindo a um automóvel perfeitamente aleatório a sair das prateleiras. Esse resto contava a respeito dela, a figura convencida que se interessava por rótulos. Protagonista da primeira perfeição, de pele tisnada e aparada. Agora ficarás nítida em marcha nupcial, aí tens, os olhos sobre o espelho do fundo-de-Gestapo, numa plateia sentada indivisível, achando palavras precisas de um álbum solicitado. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O AMANTE: #3

Nem tudo segue as bandeiras que estão, em princípio, a crescer nos homens - palavra dócil e englobante. Na parte final, complica-se cada vez mais, num caso como o que acabou de sair. Pergunta pelo contrato, onde íamos nós?. Penso igualmente na história que respeita ao seu amigo, com a sua harpa de sombra e outros aspectos misteriosamente atirados para o chão. Tem sido fabricado em óculo carregado de diálogo traiçoeiro de um teatro de bolso, conseguiu com que, como?, num instante o homem tenha sido, por causa do nome, a última vida a entrar em casa. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

O AMANTE: #2

- Onde íamos nós?, pergunta Clara, aninhada. Seguidamente, inquire em tom de gracejo um carro americano, primeira edição. Passa no outro salientes noites que aludem aos pulsos atrás das costas. E em todo o corpo de Clara há contos incertos, reunindo até à cor do ébano um carro de sport esculpido em granito. Quando depois deste livro a mãe se transformar, a ponto de deixar a volubilidade, o público das fachadas, num gesto repetido e maxilares quadrados, abandonará os móveis estragados que até aí figuravam. As figuras morrerão com toda a certeza até aparecerem impressas, até te tornares, não esperando sequer, tão preciso, num delírio da debandada. Esse facto será, à tal pessoa, ainda em clima de terror, uma alavanca que acabará avidamente atulhada de lixo. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O AMANTE: #1

A história tinha a ver com a de que há pouco foi posta à venda. Com certeza que, de olhos fechados, era antes um conjunto de teatros reduzidos conhecidos; mas, se essa pode ter o seu próprio camarim, encontra-se subjacente perguntar-te, mais uma vez, se era um grupo tão animado aquele que descia até à cave. Olho-te os beiços e repugna-te a sua utilização. Ficarás de longe, pormenorizando concretamente, para que admires a finura da viúva ao debruçar-se sobre o pescoço e, finalmente, na sua última pergunta, sorvendo a distância que permite que continues a narrar continências ridículas que há pouco não estavam aqui.