Sala de espera
A sala branca e tão fria. As paredes tão gastas e mal tratadas. As mesas castanhas de madeira lembram o passar dos anos. As portas abrem-se facilmente, medo de sufoco. A máquina já nem tem café, esgotada pelos seres nervosos e incertos que todos os dias aqui aguardam melhoras, notícias ou, muitas vezes, que a morte passe finalmente por eles. Não sei há quanto tempo estou sentada neste sofá preto que incomoda as costas e grita por um lugar novo; não sei há quanto tempo observo o rapaz da minha idade preso a uma máquina de oxigénio e que, volta na volta, solta um som estridente, lembrando as enfermeiras que é hora de pôr um saco novo no andarilho. Também à minha frente está a menina a pintar livros a preto e branco. Com a mesa cheia de lápis de cor, olha fixamente para aqueles contornos que alguma máquina imprimiu no papel reciclado de capa amarela. O pai divide os olhos entre a televisão e a filha, sempre atento, sempre esperançoso, sempre pai. Talvez olhe a televisão e nem veja nada. Às vezes acontece-me isso, enquanto as horas passam nestas salas de espera. Conheço-as todas, todos os cantos e manhas. A máquina que rouba moedas de 10 cêntimos, a televisão que não fixa na Sic, a cadeira com as costas partidas e que evito sempre que posso. Mas tudo isto aconteceu hoje e amanhã será um novo dia. Ou mesmo que seja igual, todos nós, aqui, o encaramos de forma diferente. Porque a pessoa que aqui está, que aqui dorme e nos espera no horário da visita, sobreviveu o suficiente para desejar bom dia. E isto é assim, é assim que tem que ser. Até um dia.