Vou perdendo os silêncios a que durante anos me acostumei. Encontro as
diretrizes que acreditava desfeitas em nós complexos e tanta, tanta incerteza
do fim. Vejo-te na minha cama, respiras devagar, incomoda-te o meu braço sobre
a tua barriga, ajeitas, pensas que não vejo, pensas que não assisto à tua
manobra de perfeitarmos os nossos corpos em sintonia. Encosto o olho ao canto e
vejo que a manhã chegou: o quarto deixa de estar escuro, adivinho o tom do
despertador, aguardo a sua chegada dentro de alguns segundos, oiço vozes na
cozinha. O dia começou sem nós, vês como não fazemos falta? Deixa-nos ficar
aqui, estaremos prontos, assim, amanhã? Repete esse gesto que é apanhares o meu
despertador quando ele dispara e abraçares-me de seguida, beijas-me. Choramos
os dois, não choramos? Choramos por ter tido que dividir a noite e o amor pelas
horas de sono, que amanhã trabalhamos, há ensaios, há e-mails, há propostas. Agarra-me
um pouco mais. Não vou deixar-te ir.