quarta-feira, 26 de março de 2014

perder silêncios


Vou perdendo os silêncios a que durante anos me acostumei. Encontro as diretrizes que acreditava desfeitas em nós complexos e tanta, tanta incerteza do fim. Vejo-te na minha cama, respiras devagar, incomoda-te o meu braço sobre a tua barriga, ajeitas, pensas que não vejo, pensas que não assisto à tua manobra de perfeitarmos os nossos corpos em sintonia. Encosto o olho ao canto e vejo que a manhã chegou: o quarto deixa de estar escuro, adivinho o tom do despertador, aguardo a sua chegada dentro de alguns segundos, oiço vozes na cozinha. O dia começou sem nós, vês como não fazemos falta? Deixa-nos ficar aqui, estaremos prontos, assim, amanhã? Repete esse gesto que é apanhares o meu despertador quando ele dispara e abraçares-me de seguida, beijas-me. Choramos os dois, não choramos? Choramos por ter tido que dividir a noite e o amor pelas horas de sono, que amanhã trabalhamos, há ensaios, há e-mails, há propostas. Agarra-me um pouco mais. Não vou deixar-te ir.