terça-feira, 6 de maio de 2014

1,60m


Encontro a utopia quando te vejo. Os teus olhos tão escuros e cerrados em mim, no meu corpo, atentos à mínima mudança de estado. Queres ficar e agarras a minha mão, dedos finos, elásticos, que servem de carícias nas noites tardias de cansaço, nos dias longos que pensam e te lembram o correr dos anos. Utopia é ver-te afagar o meu cabelo, fazeres nós, arrancares os excessos em queda. É abraçares-me e quase não sentires o meu corpo, de tão pequeno é. A janela está aberta, corre vento e  muros levantam-se lá foram. Ouvem-se gritos, armas apontadas, sensibilidades esquecidas. É para nós, meu amor. Não vês? Não vês que é para nós. Deixa-te ficar, dizes-me. E eu descanso o meu 1,60m junto a ti, com os olhos postos no vidro que ameaça trazer a morte. Ninguém nos vê, sussurras. E não sabes que não são estes motins que me fazem chorar.