Encontro a utopia quando te vejo. Os teus
olhos tão escuros e cerrados em mim, no meu corpo, atentos à mínima mudança de
estado. Queres ficar e agarras a minha mão, dedos finos, elásticos, que servem
de carícias nas noites tardias de cansaço, nos dias longos que pensam e te
lembram o correr dos anos. Utopia é ver-te afagar o meu cabelo, fazeres nós,
arrancares os excessos em queda. É abraçares-me e quase não sentires o meu
corpo, de tão pequeno é. A janela está aberta, corre vento e muros levantam-se lá foram. Ouvem-se gritos,
armas apontadas, sensibilidades esquecidas. É para nós, meu amor. Não vês? Não
vês que é para nós. Deixa-te ficar,
dizes-me. E eu descanso o meu 1,60m junto a ti, com os olhos postos no vidro
que ameaça trazer a morte. Ninguém nos vê,
sussurras. E não sabes que não são estes motins que me fazem chorar.