- És um fala-barato, dizia ele enquanto descia a Correia Tales,
- És um fala-barato e não vales nada, repetia
Dobrei o caminho para não dar de caras com o homem sisudo que acordava a vizinhança com botas pesadas e quentes para esta estação do ano. Abracei este novo atalho e dei por mim a olhar para trás à espera de o ver. Àquele homem que falava alto, que apontava pistolas no cu, que dizia foda-se e caralhos te fodam. E dei por mim a querer ser aquele homem. E dei por mim a querer saber daquele homem.
Aquele homem que um dia escreveu uma dedicatória num livro a uma amiga da escola, aquele homem que tem uma ou duas dores em simultâneo, aquele homem que sobeja a parasitagem, que não pensa para amanhã, que não pergunta, não explica, não é gente comprimida nem explicada.
Olho para a cara daquele homem e penso que é um imbecil. Que somos corpos numa floresta, corpos que vivem condenados sem fundamento, sem moral, sem eternidade. Somos crimes políticos à espera do abismo, somos respostas que descansam à beira das perguntas, somos mito da vida humana, somos mito de uma sociedade.
Olho para a cara daquele homem e penso que sou uma imbecil. Alguém que gravou na memória astros de uma vida de Outono, que pensa o futuro e estremece, que vê uma pintura de Goya e pensa nos dinossauros, que vê no vazio a possibilidade de agregação de um tempo dedicado à neve e lutas de infância.
Olho para a cara daquele homem e penso que somos imbecis. Somos mortes sem razão, somos artistas débeis sem verdade, somos leitores de Ovídio que se calam de vez em quando.
Somos tudo isto na Correia Teles.
E eu que nunca saí de casa.
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